Resiliência

Syssa Monteiro, 25 anos, professora de filosofia

Resiliência é capacidade de se recobrar ou se adaptar à má sorte ou às mudanças. É também uma das características marcantes de Syssa Monteiro, 25 anos. Vítima de violência física e simbólica na escola, ela resistiu bravamente a tudo e a todos que a oprimiam e decidiu que a educação seria sua grande arma de transformação. Mais do que ninguém, essa jovem sabe como a sala de aula pode ser prisão. Ela deseja que seja libertação.

O mais marcante mesmo era exclusão da sala de aula

Quando criança, ainda sem nem iniciar sua transição, sofreu agressão e exclusão. “Na escola já aconteceu de eu sofrer agressão física. Eu levei 4 tapas de um menino por eu ser diferente. Os tapas eram repressivos, como ele colocou, que era para eu aprender a virar homem”, relembra. O círculo vicioso de violência acontecia não apenas por colegas, se estendia por todo o corpo docente e até gestores. “Tinha tratamento diferenciado por alguns professores. O mais marcante mesmo era exclusão da sala de aula. As pessoas não se aproximava de mim. A saída que eu encontrei era participar de atividades do colégio, como grêmio, liderança de sala. E sempre tirar notas altas para ser respeitada”, relata.

A transição do Ensino Médio para o Superior foi marcada também pelo início do externalização de sua feminilidade. Syssa achou que a universidade estaria aberta à diversidade. Descobriu que não. Quando começou a usar roupas femininas passou a vivenciar diversas negações de direitos. Em 2010, a Universidade Federal do Ceará não usava nome social nem garantia acesso ao banheiro por identificação de gênero. “Não podia usar o banheiro feminino, como eu me identificava. Então ficava suscetível a agressões verbais, psicológicas e morais no banheiro masculino, como aconteceu várias vezes. Foram tantas negações que eu desisti da universidade e me submeti a subempregos para manter a externalização da minha identidade”.

Depois do processo transexualizador, o retorno foi menos traumático. Com portarias que garantiam o mínimo para que uma pessoa trans se sentisse confortável dentro das instituições de ensino, a universidade ganhou um pouco mais de leveza. “Tive o uso do nome social e tem uma diferença grande. Fui aprovado na bolsa de iniciação à pesquisa, em segundo lugar, e pude levar a questão trans para trabalhar na escola e combater o preconceito. O trabalho teve repercussão tão grande que recebeu diversos elogios e fui selecionada para representar a Universidade Federal do Ceará num encontro nacional”, orgulha-se.

O trabalho que ela desenvolveu na escola tinha o objetivo de combater a transfobia. Garantiu o uso do nome social e uso do banheiro por identificação de gênero e viu a procura de estudantes trans crescer. Ela também participa como voluntária do “Transpassando”, primeiro projeto de extensão universitária voltado para a pessoa trans no Brasil. O programa da universidade Estadual do Ceará (UECE) oferece cursinho preparatório para o Enem e formação profissional para travestis e transexuais. “Além de combater a transfobia, vem com a proposta de combater o higienismo social. A partir do momento que esse espaço se concretiza como espaço de habitação de pessoas trans, ocorre a quebra dessa exclusão histórica”, defende. O resultado é ver alunos adentrando universidades e mudando suas histórias.

Medo

Não que seja um demérito se prostituir, mas eu não queria ter isso como obrigatoriedade. Eu queria ter acesso a outras oportunidades
Syssa

Assumir-se uma pessoa trans no Brasil é também viver com alguns temores. O medo da exclusão e da violência são praticamente recorrentes nessa população. “Para mim, o mais marcante era tanto a questão do preconceito em si que eu ia vivenciar e o medo da questão dos assassinatos. Inclusive esse também é o medo da minha família. E a questão da prostituição, de eu ser obrigada a me prostituir. Eu não me via naquela situação. Então isso foi algo que me incomodou muito. Tinha muito medo e isso fez com que eu demorasse a externalizar minha identidade. Não que seja um demérito se prostituir, mas eu não queria ter isso como obrigatoriedade. Eu queria ter acesso a outras oportunidades”.

Apesar do medo, ela sabia que não havia outro caminho. Syssa vivenciava uma sensação de deslocamento. Sem compreender onde ela se encaixava, só aos 16 anos, quando teve acesso à informação, percebeu que o reflexo no espelho não representava sua essência. “Foi um choque. A pessoa que eu tava vendo não era a pessoa que eu gostaria de ser, gostaria de estar, externalizar. Meu grito de liberdade inicial foi deixar meu cabelo crescer”.

Futuro

Com o diploma de ensino superior na mão, a garota agora acalanta novos sonhos e desejos. Planeja ir para a sala de aula. Ela quer ser professora e implementar o projeto que desenvolveu em outras instituições, garantindo que a escola seja um lugar seguro e de crescimento. “Feliz é uma palavra muito forte. Eu estou no início de um realização profissional. Um dos meus planos para o próximo ano seria conseguir um trabalho em uma escola que seria concretizar o meu projeto. Eu espero que tenha alguma escola que me aceite para eu ter essa realização. Voltar trans para a escola que eu estudei seria uma realização. E continuar estudando para mestrado”.