Não é todo mundo
que pode estar na escola

LUMA ANDRADE, 40 anos, Doutora em Educação

Mais de 90% dos travestis e transexuais no País não conseguem terminar o Ensino Fundamental. Vítimas de violência, exclusão e desrespeito, eles enxergam a escola como mais um ambiente hostil. Para Luma Andrade, 40 anos, também. Criou uma rota de fuga e fez da educação sua aposta para não apenas melhorar a vida da família como também abrir portas para outras pessoas como ela. Hoje, ostenta o título de primeira travesti doutora do Brasil. Não com orgulho, ressalta. Ela queria que tantas outras estivessem com ela no corpo efetivo de professores das universidades.

Precisamos de pessoas solidárias. A gente encontra. Não são só pedras

“Desde a infância eu vivia com essa violência que é demarcada não só fisicamente, mas psicologicamente, verbalmente, intelectualmente. A gente percebe que quando as pessoas subvertem essas ordens têm que sofrer essas represálias. Na escola eu tive muitos embates. Não é todo mundo que pode estar na escola, apesar da gente dizer que é um direito fundamental. Às vezes, sua diferença lhe proporciona uma negação do lugar”, relembra.

Para não desistir, deixou de frequentar o banheiro enquanto estava na escola porque o acesso ao banheiro feminino lhe era negado. Deixou de compartilhar o espaço do recreio e brincar com as meninas porque era violentada pelos meninos. Ela era colocada à margem. Excluída. “A escola tinha limites para minha existência. Se eu quisesse sobreviver naquele espaço eu tinha que me assujeitar a muitas situações de não utilizar o banheiro, de ter dores atrozes por não fazer minha necessidades fisiológicas, de não poder merendar, brincar na hora do intervalo. Eu tive momento de ser violentada fisicamente. As professoras sabiam disso e faziam de conta que nada acontecia. Teve uma professora que soube que eu tinha sido violentada e chegou para mim e disse: “Bem feito. Quem manda você ser assim”. Eu era uma criança. Não entendia”.

Medo

Não vivo a mesma vulnerabilidade das mulheres trans e travestis que estão se prostituindo na rua, mas convivo com o preconceito
Luma

Sobreviver a esse ciclo de violências constantes só foi possível com uma estratégia possível. “Silenciar as violências, resistir, se assujeitar, para posteriormente eu conseguir resistir. O processo de resistência não surge na minha história de vida desde o início. Surge como negociação de assujeitamento para resistir”, explica ela que ainda vive rotinas de preconceito com colegas, professores universitários, alunos e gestores. A professora da Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira (Unilab) reconhece que o processo discriminatório persiste mesmo em ambiente acadêmico. “Não vivo a mesma vulnerabilidade das mulheres trans e travestis que estão se prostituindo na rua, mas convivo com o preconceito”, aponta ela que chegou a ser indicada para vaga de reitora da Universidade.

Luma passou a lutar por si e pelos outros. É voz forte na luta pela garantia de direitos básicos de outras mulheres travestis e trans. Luma não descansa. Viaja o País onde conta sua história e aponta caminhos. De outras mulheres, recebe a gratidão de lhes oferecer esperança de que outro mundo é possível. Apesar de duro, ela sabe que é preciso acreditar que as coisas vão melhorar. “Precisamos de pessoas solidárias. A gente encontra. Não são só pedras”.