Transição:
dor e prazer

Kaio Lemos, 38 anos, Bacharel em Humanidades

Há dois anos e oito meses, Kaio vivencia uma via-crúcis em busca de sua transição. Precisou entrar com processos judiciais para conseguir ser acompanhado por médicos e receber pelo Sistema Único de Saúde (SUS) a terapia hormonal. Sua imagem no espelho é mais próxima à representação de sua alma. Ainda faltam algumas alterações para que ele possa, enfim, se sentir em casa em seu próprio corpo. Aguarda a liberação para a mastectomia masculinizadora e para a retirada de útero.

A maior carência é o acesso à saúde

“Como comecei, em 2014, fiz esse processo dentro de um Hospital Mental (no Ambulatório de Transtornos da Sexualidade Humana- Atash) que é uma forma muito pesada. A gente tem carência profissional. Tive que recorrer à Justiça para conseguir profissional. Sou atendido por um endocrinologista pago pelo Estado. Outro processo foi a terapia hormonal. Recebo toda a medicação através da Justiça. Hoje em dia, posso dizer que tenho acesso a 50%, mas todo vindo de ordem judicial. É preciso que um juiz outorgue para que ele me humanize, para que ele me torne um ser humano”, critica.

Ao mesmo tempo que Kaio critica o SUS, ele reconhece que o fato de os serviços serem gratuitos é uma grande vantagem que as pessoas trans têm no Brasil. O que falta, alerta ele, é fazer com que ele saia do papel e seja de fato acessível à população. “A maior carência é o acesso à saúde. Para realizar esse processo transexualizador eu preciso enfrentar uma equipe médica que é exigida uma série de documentação que comprove sua transexualidade. Muitas vezes ainda é questionada. É preciso pensar sobre essa normatividade do SUS. São esses processos que não permitem sua saúde garantida. Esse processo nos torna doentes. Eles questionam nossa saúde mental, mas muitas vezes são eles que destroem nossa saúde mental por fazer esse processo doloroso, testando quem você é. O tempo todo duvidando da nossa identidade”.

Infância e os signos femininos

Mesmo antes de compreender-se como um homem trans, Kaio vivia processos transitórios em relação a sua imagem. Na infância, ser considerado “a princesa da escola” significava uma enorme dor. “Eu costumo dizer que a transição é a dor e a delícia de ser eu, de ser nós, pessoas trans. Falo isso porque esse processo transitório traz a realidade da dor e do prazer. Na minha infância, eu posso dizer que tive uma infância muito difícil por conflitos com a mãe, referente às roupas.Os meus signos femininos chamavam muita atenção. Eu era conhecido como a menina linda da escola, a rainha. Me transformava num objeto de atenção. E isso pra mim era a representação da dor. Vivenciei isso na escola na minha infância toda”.

Se olhar era muito difícil. Foi um processo bem doloroso. Tive muitos conflitos. Entrei na depressão
Kaio

A tentativa de prazer era vinda através de negociações.”Eu vivia de negociação com minha mãe. Eu tinha que usar um vestido pra ser a rainha da escola e eu pedia uma roupa masculina. Era assim que eu tinha minha subjetividade alimentada”, conta. A adolescência - período já conturbado e repleto de mudanças corporais- foi ainda mais sofrida. Ver um corpo cada vez mais feminino era como se o corpo vencesse a mente.

“O corpo está desenvolvido biologicamente feminino, então vinha uma leitura me enquadrando. Se olhar era muito difícil. Foi um processo bem doloroso. Tive muitos conflitos. Entrei na depressão, fui muito dependente do uso de drogas. Passei por momentos bem complicados até mesmo em tentativa de suicídio. Nesse momento, não consigo ver o prazer”.

A luta para ser Kaio o afastou de casa, rompeu os laços com a mãe. O processo que já é solitário ficou ainda mais. No entanto, ele sabe que é preciso tempo. Com quase três anos de afastamento, os encontros com a mãe vêm acontecendo de uma forma mais tranquila. Kaio acredita que o amor sempre vence.