Todas as
cores do ser

Caio José, 24 anos, enfermeiro

No baile de formatura, Caio José, 24 anos, viveu morte e renascimento. Se despediu de uma vez por todas dos signos femininos que ainda lhes eram obrigados a carregar pela sociedade. De vestido vermelho e maquiagem, ele parecia aprisionado. Gritou resistência onde pôde: no moicano e na música escolhida para marcar seu momento, “True Colors”, de Cindy Lauper.

Se eu tenho meu pai e minha mãe, o mundo pode cair em cima da minha cabeça

“Meu baile foi um desastre. Eu não queria estar ali. Eu vestia o vestido chorando. Eu não suportava a ideia de que eu sabia que eu era um homem e estava de vestido, todo maquiado. Eu não consigo nem ver as fotos. Eu lembro que eu desci as escadas e coloquei a música da Cindy Lauper, “True Colors”, porque era a minha música de transição. E quando eu botei eu vi minha mãe chorando. Era um choro porque ela entendeu que eu estava sofrendo. Cada momento que eu descia aquela escada era um pedaço de mim que estava morrendo. Meu olhar gritava desespero. Acabou tudo aquilo”, relembra.

Depois, criou coragem para afirmar sua identidade de gênero. Começou pela família. A mãe foi mais resistente. Tinha medo da violência, do preconceito e do sofrimento que “seu menino” enfrentaria. Ele temia que o pai não o acolhesse. No entanto, foi com ele - o homem que sempre foi seu modelo e exemplo - que Caio viveu um dos momentos mais bonitos de sua história.

“Eu comecei minha transição sem ele saber. Só minha mãe, minha irmã e primas sabiam. Eu cheguei para ele e disse: ‘pai, sua filha não existe. Eu sou um homem trans’. Eu tinha arrumado minhas malas já porque se ele me expulsasse eu ia para casa da minha prima. Ele ficou calado e depois disse assim: ‘eu lhe amo de qualquer jeito. Eu já sabia. Eu lhe aceito e aproveite o resto de vida que eu tenho. O que você precisar eu lhe ajudo’. A partir desse dia, foi um alívio”, conta.

Família

O suporte familiar foi fundamental para que a história de Caio ganhasse cores diferentes da maioria das travestis e pessoas trans do Brasil. Vítimas de abandono da família, do Estado e da sociedade, transgêneros vivem processos solitários que os impedem de terminar a escola, de acessar o sistema de saúde e de conquistar postos formais no mercado de trabalho.

Minha mãe todos os dias me lembra que eu sou especial pra ela, mesmo a sociedade dizendo que eu sou aberração, que eu tenho que morrer. Meus pais me apoiam muito. Isso me dá muita força. Minha família é minha força
Caio

“Se eu tenho meu pai e minha mãe, o mundo pode cair em cima da minha cabeça. Eles me apoiam todos os dias da minha vida. Sem eles eu não sou ninguém. Sem eles eu não sou o Caio. Primeiro porque eles me acolheram. Eu não sou filho biológico. Sou filho de coração. Eles poderiam me mandar embora, não têm vínculo sanguíneo. Mas eles me acolheram duas vezes. Me acolheram quando eu nasci a primeira vez e quando eu nasci a segunda vez. E eles me acolhem todos os dias”, comemora.

Enfermeiro especialista em nefrologia, Caio enfrentou preconceito para conseguir emprego. Hoje ele integra a equipe do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (SAMU), mas antes foram muitos “nãos”. “Eu não sou nefrologista atuante porque eu não consigo emprego. Eu tento pensar que não é isso, é o mercado. Mas todos os caminhos levam pra isso”. Difícil saber que as portas se fecham por preconceito. Nessa jornada, viu e ouviu agressões de pessoas mais inesperadas.

“Na pós-graduação, eu tive uma professora que disse pra mim que nunca me colocaria para trabalhar lá no ambiente em que ela trabalha porque pessoas como eu, LGBTs no geral, eram estupradoras. Isso na frente de várias pessoas. Eu cheguei em casa destruído”, relata. Essas violências simbólicas e físicas impõem que o enfermeiro deixe de fazer coisas que sempre desejou. Sempre se vive pela metade.

“Eu consigo uma coisa e ao mesmo tempo me é tirado duas.Hoje em dia é mais fácil porque eu tenho essa ‘passabilidade cis’. Mas ao mesmo tempo essa ‘passabilidade’ não é uma comemoração. Porque eu preciso dela pra andar na rua. Se eu não tiver isso, eu posso ser morto”, conta ele que não costuma andar sozinho a pé e só sai à noite com grupos de amigos. Morar no Interior, em Quixeramobim, foi um desafio a mais. Não se passa despercebido e ele ainda tem que lidar com pessoas que a todo momento questionam sua decisão.

Imagem

“Meu processo começou desde a infância. No meu caso, eu tinha crença na minha cabeça que eu era igual ao meu pai. Em nenhum momento eu achei que era igual a minha irmã e minha mãe. Eu tive um baque aos 8 anos quando descobrir que eu não era igual o meu pai. Eu comecei a entender que tinha alguma coisa errada. Eu coloquei na minha cabeça que eu era uma aberração. Que era uma coisa errada, que eu não poderia existir”, explica.

O entendimento que era um homem trans chegou durante a faculdade. Apesar de lutas internas para aceitar sua verdadeira identidade de gênero, Caio percebeu que se não fosse sincero com o que sentia não conseguiria seguir. “Chegou um momento eu pensei: ou você faz sua transição ou vai ser uma pessoa infeliz e acabar se matando, que era o que eu pensava”. Desde então, ele se dedicou a externalizar o que é por dentro. Começou a terapia hormonal, realizou a mastectomia masculinizadora e faz acompanhamento psicológico. Tudo pago por ele.

Seu sonho agora é conquistar outro emprego e entrar na faculdade de medicina. Caio deseja ser cirurgião plástico. Planeja com isso melhorar o acesso a esse tipo de serviço a pessoas que precisam e não conseguem pelo Sistema Único de Saúde. Novos sonhos!