O corpo a gente transforma,
a alma a gente liberta

Apollo Franco, 25 anos, Músico e arte educador

Considerado o deus grego das artes, da música, da verdade, da poesia e da perfeição, Apollo foi a inspiração para o recomeço. Apaixonado por mitologia, o músico e arte educador Apollo Franco, 24 anos, se batizou com o nome que simbolicamente lhe representava. Humano, teve que se reconstruir até que pudesse, enfim, se encarar. Nessa jornada do herói, muitos foram os desafios. O primeiro foi se reconhecer.

Achava que era lésbica. Mas eu era pressionada

O sentimento de inadequação sempre existiu. Menina do Interior viveu cercada pela doutrina religiosa. Chegou a viver em convento. Mas, conseguia transgredir algumas regras em nome de seus desejos. No entanto, nunca se sentiu enquadrada. “Eu até então achava que era lésbica. Mas eu era pressionada. Se eu ficasse com um menino, minhas amigas lésbicas me criticava”.

A volta para casa coincidiu com o início de sua transição. No começo, poucos souberam. Morar em Fortaleza, longe da família mais tradicional, ajudou a ter a liberdade que precisava para vivenciar esses processos transexualizadores. No entanto, logo viu que o acesso aos serviços de saúde necessários para uma transição segura não existia no Brasil. Submeteu-se à clandestinidade. Sem acompanhamento médico, iniciou sua terapia hormonal. Para transformar o corpo, ficou refém do mercado negro. “Comprei remédios sem receita, comprei receita”.

Existência política e coletiva

Nesse momento, acompanhou um amigo que apresentou efeitos colaterais a essa hormonização. “Ele começou a sentir muita dor nas regiões dos rins. Foi muito dificultoso. Ele passava por agressões no posto, perderam exames deles. Ele teve que parar e entrou em depressão. Tentou se suicidar. Foi nessa experiência de estar junto dos meninos, que fui me inserindo na Associação (Associação Transmasculina do Ceará- Atrans-CE). Passei a orientar os meninos para eles não irem para a clandestinidade e lutar por políticas públicas. Porque eles iriam morrer”, justifica.

Eu levava meu currículo com nome social, ia para as entrevistas, tenho experiência internacional e as pessoas se empolgavam. Quando chegava a parte de entregar a documentação, a pessoa olhava e dizia assim: “mas como assim?”
Apollo

Foi assim que percebeu que sua luta não era mais individual. Era preciso olhar para outros que vivenciavam, assim como ele, de uma rotina de negações de direitos. Fez de sua existência também uma causa política. Hoje, ele é presidente da Atrans-CE e coordena junto a Kaio Lemos o primeiro abrigo para homens trans do Ceará.

Estar à frente de um grupo é também a força necessária para não desistir sempre que recebe um não ou quando vivencia preconceitos e violências. “Como eu estou à frente de um movimento, um grupo, os meninos se espelham muito. Tem horas que eu estou em casa e o que eu mais queria era morrer, de não aguentar mais, de estar mal. Aí vem um dos meninos no WhatsApp muito mal também. E aí eu tiro força disso. Se alguém que está à frente desiste, em quem os outros meninos vão se apoiar? Eu quero viver, gosto de viver. Não vou desistir por isso. Não vou tirar minha vida pelo preconceito, pela ignorância das pessoas. E vejo que a gente tem uma missão de desconstruir isso”.

Exclusão do mercado

Ao mesmo tempo em que transicionava, foi vendo portas se fechando. O retorno da França mostrou o preconceito. Não conseguia mais trabalho em sua área e amargou um ano e um mês de desemprego. “Eu levava o currículo, fazia muitas seleções. Eu queria trabalhar na minha área porque desde 15 anos eu trabalhava na minha área. Foi muito frustrante, fiquei muito mal, não fiquei em depressão porque eu tinha acompanhamento e isso me ajudou. Eu levava meu currículo com nome social, ia para as entrevistas, tenho experiência internacional e as pessoas se empolgavam. Quando chegava a parte de entregar a documentação, a pessoa olhava e dizia assim: “mas como assim?” Isso era devastador. Chegava em casa querendo morrer”.

Diante disso, teve que se reinventar. Viu na própria necessidade dos homens trans uma saída. Resolveu desenvolver um binder, acessório que comprime os seios. Pensou em gerar renda e em proporcionar para os outros meninos um produto mais acessível. “Comecei a pesquisar e fazer. Coloquei preço mais acessível e os meninos poderiam pagar um frete mais barato. Eu comecei a vender para tirar um trocado”. Este mês, conseguiu retornar para o mercado em sua área. Passou numa disputada seleção para arte educador.