Até na arte
a gente enfrenta preconceito

Alicia Pietá, 31 anos, atriz

Nada é por acaso. Foi mergulhando em um trabalho, desenvolvendo uma personagem no teatro, que Alícia Pietá, 31 anos, se reconheceu. Em 2008, finalizando o curso de artes cênicas no Instituto Federal do Ceará (IFCE), entrou em contato com o universo das travestis. A convite do ator e diretor Silvério Pereira, participou do Cabaré da Dama.

Você quer ser mulher? Então seja a belíssima. E eu me cobrava muito

“Então, nessa época a gente só se montava, drag, transformista. E a gente dizia que era só personagem. E aquela confusão pessoal e artística. Será que eu posso fazer isso? A partir daí a gente foi vivenciando e se descobrindo mesmo, enquanto pessoa e artista. Até você quebrar várias barreiras, preconceitos sobre você mesmo, sobre a profissão, sobre seu estilo. Se eu posso ter isso como fonte de renda ou não? Que preconceitos vou sofrer na profissão e no pessoal? É uma longa jornada. Eu sempre me entendi que era diferente.Teve influência enorme com esse trabalho”.

Com Alícia, a personagem, descobriu a vida que drags e transformistas viviam. Com o Coletivo “As Travestidas” viu que falar sobre o tema não seria tão bem aceito. As apresentações não podiam entrar nos teatros. Os números ganhavam vida em boates e casas de show. Era o preconceito vivo e altivo também no ambiente mais livre da arte. “Até na arte a gente enfrenta preconceito. Ah, só pode fazer um tipo de papel. O grupo só aborda esse tema. São falas dos próprios colegas do meio. Você tem que ficar provando o tempo todo que você é boa. Que você é capaz. Você não pode ser medíocre”.

Seu processo de transição aconteceu num tempo próprio. Demorou o tempo em que demorou sua descoberta. Sem pressão de mudar o corpo, o nome, ela fala isso sem tantas dores e traumas. Quem vê e conversa com Pietá nem consegue imaginar que em algum momento ela se sentia insegura com sua imagem. A pressão para ser uma mulher perfeita também recai sobre ela com toda sua potência.

Lagarta, casulo, borboleta

“Eu achava que eu era muito feia. Eu achava muito magra, muito alta. Me achava muito masculina. Não era como é hoje. Não tinha informação. Eu me negava, eu me boicotava. Fui experimentando. Aí, quer saber, eu tô bonita. Sempre, querendo ou não você fica muito presa à questão da beleza. Você fica com esse estigma da beleza. A gente muito mais. Porque é como se e a sociedade dissesse: “ Você quer ser mulher? Então seja a belíssima. E eu me cobrava muito”.

Apenas com 27 anos, iniciou a hormonioterapia. Sempre com muito medo porque não havia acompanhamento médico. Ela também não teve acesso a um endocrinologista que a orientasse. Foram outras mulheres trans e travestis que compartilhavam suas experiências. Sua última intervenção veio este ano: a prótese de silicone no seio. “Sempre dizia que não me importava. Eu fui experimentar um vestido que eu queria e quando coloquei no corpo faltava uma coisa aqui. Aí eu fiquei com isso. Eu já tinha essa vontade. Apenas negava. Essas mudanças corporais fazem parte dessa descoberta. É um processo meio de borboleta. A lagarta, o casulo. Tem o sacrifício psicológico e físico”.

A escola é sempre excludente

A minha arma, minha fuga, foi sempre o humor
Alicia

Aos 9 anos, Alícia sentiu a primeira agressão. Na escola, viu um colega gritar a palavra “viado” e apontar para ela. “Eu tinha 9 anos. Eu nem sabia o que era isso”. O bullying era recorrente. Para sobreviver, encontrou uma saída. “A minha arma, minha fuga, foi sempre o humor. Quando praticavam bullying comigo eu sempre dizia e “tu?”. Eu sempre revidava. Eu revidava talvez com outro preconceito. Mas era minha arma. Eu era, na época menino, aceito pelo humor”.

A atriz afirma que a escola é um ambiente excludente a todas as pessoas diferentes. Fazer parte desse grupo é difícil. E isso vai se repetindo em tantos outros espaços. “Eu fiz minha faculdade IFCE sem transicionar. Eu fico me perguntando se eu tivesse já transicionado, será que eu teria concluído? São várias provações. Imagina chegar e não poder usar o banheiro que você se identifica? Ser chamado pelo nome de registro. Nada é facilitado pra gente. É sempre uma barreira a mais”, questiona.