Um mar de conhecimento

Um mar de conhecimento

Fazer com os outros o que fizeram com ele. Esse é um dos lemas de Jair Ferreira Marques, de 28 anos, que é kitesurfista e empresário. E essa deve ser mesmo a ordem para a gente contar a história dele, porque antes de montar o próprio negócio, Jair se especializava no mar e fora dele também.
Ainda adolescente, com 15 anos, o filho caçula entre dez irmãos de uma família de pescadores olhou para todos em casa e descobriu o que queria. Ou melhor, percebeu o que não queria. Jair respeita e admira muito a profissão de pescador do pai e de alguns irmãos, mas sentia o desejo de buscar algo diferente: “Eu não me via naquela vida de pescador e. então, decidi estudar e me aperfeiçoar no esporte”, lembra Jair, que é nativo da Praia do Preá, no município de Cruz, a cerca de 12 quilômetros de Jericoacoara.
No banco da escola, a aula de inglês era a mais esperada por Jair e pelos amigos da vila onde morava. Na areia, o esforço dele era para conseguir uma oportunidade de praticar o esporte. Para a prática do Kitesurfe, são necessários equipamentos como: pipa, trapézio, prancha, entre outros, além de itens de segurança e proteção do atleta. Tudo isso custa muito caro, cerca de R$ 3.000,00 por produtos novos. Se você decidir por comprar equipamentos usados, o valor cai bastante, mas a qualidade e a segurança também desabam. Para Jair, a realidade financeira não lhe permitia sonhar com essa aquisição.
Aos poucos, o menino do Preá foi conhecendo atletas e empresários donos de escolas de Kitesurfe na região. Até emplacar o primeiro emprego. “Na verdade, eu consegui um estágio para trabalhar em uma escola de kite. É o chamado “staff”, que fica com o serviço mais chato e pesado desse esporte, que é montar e desmontar o equipamento. Serviço, aliás, fundamental para o atleta entender ao fundo como tudo funciona no mar”, revela Jair. Até hoje ele agradece pela oportunidade: “Eu devo muito ao pessoal dessa escolinha, que abriu as portas pra mim, um menino da comunidade que teve a chance de ser alguém na vida. A partir daí eu fui buscar o que queria”, lembra.
E Jair queria mais, muito mais. Passou a conviver com estrangeiros que visitam o ano todo aquela região. Desenvolveu a habilidade com o Kitesurfe, virou instrutor e aperfeiçoou o inglês, se tornando fluente no idioma. Além disso, ele aprendeu francês e espanhol, trocou de escola, ganhou um estágio na Indonésia e seus planos já não cabiam mais somente na cabeça. “Eu sabia da importância de falar outras línguas. Entendia que era um diferencial pra mim e por isso me dediquei e consegui, mesmo sem sair daqui”, conta Jair. Daí então decidiu que era a hora de ter a própria empresa. Com muito suor e investimento, montou a Fly Wind Kite School e passou a dar aulas por conta própria. “Eu nunca pensei em ficar rico. Queria ganhar a mesma coisa que ganhava como empregado, só que trabalhando bem menos”, explica.
O fato é que a soma de talento, empreendedorismo e a propaganda “boca a boca” transformaram os negócios de Jair em sucesso. O holandês Tjeevd Jan Ho escolheu a empresa de Jair para aprender o Kitesurfe. O próprio dono do negócio tem dado as aulas, e o estrangeiro considera fundamental ter o inglês como forma de se comunicar. “Ele explica tudo muito bem e falar em inglês me ajuda bastante até para eu não ficar com dúvidas e ter mais confiança na água”, diz o turista holandês, que encerrou garantindo: “Vou indicar para os amigos, com certeza, eles vêm pra cá”. Com mais trabalho, Jair hoje conta com uma equipe para tocar os negócios. A esposa responde pela administração, Jair coordena as aulas e auxilia outros quatro instrutores.
Com o sucesso nos negócios, era chegada a hora de devolver para a comunidade a oportunidade que ele um dia ganhou. Jair contratou então um estagiário. “Eu comecei assim, espero que ele tenha cabeça para seguir em frente e encontre um diferencial para brilhar”, deseja o empresário, se referindo a Mike Martins das Chagas, de 19 anos, contratado como “Staff” da escola. O garoto era auxiliar de eletricista e não pensou duas vezes para aceitar a nova proposta de trabalho: “Eu velejo, adoro o mar e quero ser instrutor de Kitesurfe”, confessa.
O caminho é longo e difícil, mas o exemplo de perseverança, determinação e sucesso está ali, na cara dele. É só escolher o vento certo e se jogar.