Safoneirinhos

Lá no meu pé de serra, tem som de sanfona

Texto: Germana Cabral

Em um bucólico distrito do Crato, ao sopé da Serra do Araripe, acordes podem ser ouvidos de diversos instrumentos. Estamos na Vila da Música – Sociedade Lírica do Belmonte (Solibel), uma escola que, há pouco mais de um ano, oferece aulas gratuitas para quem deseja também aprender sanfona. São 36 alunos, a partir de sete anos, distribuídos em seis turmas. Com muito interesse, já ensaiam clássicos como “Asa Branca”, “Sabiá” e “No meu pé de serra”.

Ana Thereza Damacena, Paulo Roberto Sales e Pedro Airton Teles Neto fazem aulas de sanfona na Vila da Música – Solibel FOTOS: Helene Santos

No comando das turmas, está Elidon Silva, 38 anos, um defensor da sanfona e do forró. Ao transmitir os conhecimentos, repete o gesto que recebeu do Padre Ágio Moreira, hoje um centenário Monsenhor. Fundador da Solibel, o religioso foi responsável pela formação musical de famílias de agricultores. “Comecei aos 9 anos com a flautinha doce. Aos 16, era jardineiro do padre e via ele tocando piano. E ele me disse: ‘Se você quiser, lhe ensino’. Trabalhava no jardim de manhã, e à tarde, ele me dava aula. Meu pagamento era esse”, diz o professor, nascido e criado no Belmonte. Há três anos, toca sanfona profissionalmente.

A relação de Elidon com a sanfona é mais recente. Em 2012, ao participar do Festival Música da Ibiapaba, conheceu o acordeonista Rodolf Fort. “Fiquei apaixonado pelo instrumento. Comecei a tocar e três anos depois estava dominando. Saí da roça e estou vivendo da música”, afirma o sanfoneiro, que, além de ensinar, participa da Banda Municipal de Música do Crato, na qual toca clarinete, e do grupo “Safonada Kariri”, ao lado de Raphael Belo Xote e Ranier Oliveira.

Não tem dinheiro no mundo que pague o prazer que estou tendo em ensinar a esses meninos tocar sanfona. Enquanto puder levantar a bandeira do forró, do que é bom, espalhar o amor, estamos aí Elidon Silva, professor de música

Com essa história profissional, Elidon se sente à vontade para ensinar cada nota musical. Antes, dava aulas particulares e na antiga Solibel, até ser convidado pela Vila da Música. “Eu montei uma turma para fazer experiência. Quando olhei, já tinha 15 alunos. Damos aulas teóricas e práticas. Estão todos começando, mas destaco Felipe e Thereza que já desenvolvem bem. Tocam e cantam”.

E, assim, vai contagiando os alunos. Ana Thereza Pamplona Damacena, 13 anos, fala com o coração, toca sanfona e canta com a alma. E que voz linda ela tem! Depois de aprender vários instrumentos, elegeu a sanfona como o preferido. “Minha mãe me incentivou, me colocou pra ter aulas com vários professores, depois vim para a Vila da Música. É um lugar muito especial, tantas pessoas juntas convivendo, se esforçando para conseguir tocar melhor os instrumentos e não só por profissionalismo, mas também por prazer”.

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O colega Felipe Linard, 19 anos, inicialmente parece tímido, porém, com sua sanfona no peito, revela-se. Toca, canta e confessa adorar um arrasta-pé: “Estou aqui há um ano, na luta para aprender, e faço o primeiro semestre de Licenciatura em Música na Universidade Federal do Cariri (UFCA). É uma coisa que me chama para a música. Não tenho nem palavras para dizer”.

Felipe e Ana Thereza são personagens da nova safra da Vila da Música, inaugurada pela Secretaria da Cultura do Ceará em março de 2017. É voltada para a formação a partir da experiência realizada pela Solibel, fundada na década de 1970, que tem entre seus ex-alunos o sanfoneiro Raphael Belo Xote. Sucesso nas noites caririenses, ele reconhece a importância da escola na sua vida: “acho sensacional esse incentivo à sanfona incluído neste projeto criado com muita dedicação, respeito e garra pelo padre Ágio. Hoje, vejo alunos aprenderem na mesma sanfona Universal de 40 baixos que aprendi quando era adolescente”.

Raphael lembra que poderia estar na rua, trabalhando na roça, mas teve essa transformação que a música lhe proporcionou: “Não digo isso desmerecendo a importância da agricultura familiar, da roça, mas ressaltando essa oportunidade, um dom, que se não fosse o padre Ágio, se não fosse a escola, eu não estaria com essa repercussão, com esse sucesso aqui na região do Cariri”.

É lindo ver Ana Thereza tocar e cantar

A garota tem apenas 13 anos, mas se expressa tanto ao falar quanto ao cantar e tocar sanfona como se já fosse profissional. Com desenvoltura, pega com carinho o modelo de 120 baixos, presente da mãe, Edineusa, e começa a entoar “Asa Branca”. Assim é a meiga Ana Thereza Pamplona Damacena, que frequenta a Vila da Música Solibel desde março de 2017 e cursa o 8º ano do Ensino Fundamental.

Sanfona é o instrumento mais legal, o que mais me identifiquei
Ana Thereza, aluna

“Lá em casa tem uma vida repleta de música, de manhã, de tarde, de noite. Eu sempre fui bastante incentivada”. Pernambucana de Salgueiro, mora desde os 4 anos no Crato, e teve sua iniciação musical ainda na infância. Aprendeu flauta, teclado, violino e, por último, a sanfona. Vendo o interesse da menina, a tia Joseneide lhe deu um modelo de oito baixos.

Assim, Ana Thereza elegeu o instrumento como favorito. Teve aulas com alguns professores até chegar à Vila da Música-Solibel, em março de 2017. “Sanfona é o instrumento mais legal, o que mais me identifiquei, cultivo esse amor pela sanfona. Adoro cantar também, é quando a gente se expõe, bota nossas emoções, o seu jeito de ser, tocar e cantar junto é uma beleza”, diz ao soltar um belo sorriso.

“Cara, o forró é muito lindo, emocionante

Aos 19 anos, Felipe Linard, a princípio, parece tímido. Quando pedimos que tocasse e cantasse para a gravação de um vídeo, disse que ia tentar. Deu um show. Ele cresceu ouvindo xote e baião. “Ficava vendo o pessoal tocar sanfona, achava bonito, até que um dia vi Raphael Belo Xote tocar em um evento, me aproximei dele para saber onde poderia estudar”, recorda. Com a indicação, passou a frequentar há pouco mais de um ano a Vila da Música-Solibel.

Não posso escutar ninguém tocando, nem que seja numa lata, se for forró, eu quero logo dançar
Felipe Linard, aluno

“Estou aqui na luta para aprender. Curso também o primeiro semestre de Licenciatura em Música na Universidade Federal do Cariri (UFCA). Consegui essa vaga com muito esforço”, afirma. Da mesma forma, aconteceu para comprar o primeiro instrumento, há cerca de três meses: “A sanfona é minha, graças a Deus consegui comprar, foi cara, é uma italiana Venutti. Fiz rifa com amigos, juntei dinheiro de mesada, arrumava bico, consegui dinheiro com parentes, fui guardando, e estamos aí”, afirma, exibindo, com orgulho, a conquista.

Quando criança, sempre acompanhava o padrasto Rogério, que era baterista, aos ensaios da banda. Foi ele quem mais o incentivou Felipe a seguir os caminhos de notas musicais até se realizar na sanfona, principalmente quando toca clássicos de Luiz Gonzaga e Dominguinhos.

“O forró é uma coisa assim que quando toca, mexe, mexe o pé, mexe logo, eu quero dançar, não posso escutar ninguém tocando nem que seja numa lata, se for forró, eu quero dançar. É uma coisa nossa, carrega nossas raízes. Luiz Gonzaga, Dominguinhos, Santanna trazem essa forma de expressão que é o xote, o xaxado e o baião, cara, é muito lindo, emocionante”.

Ao concluir o curso superior, planeja tocar na noite e dedicar-se ao ensino da sanfona. “Se a gente der mais aula de música, as pessoas mudam. Continuar incentivando, como Luiz Gonzaga já fazia dando sanfona para muita gente. Quero ver a valorização da nossa cultura, não mostrar só a relação do Nordeste com a seca, de sofrimento”.

O belo xote de Raphael

São três CDs gravados, agenda de shows concorrida, um site, canal no youtube, videoclips e sucessos com composições próprias. Se você perguntar a alguém do Cariri sobre os destaques do forró pé de serra na região, com certeza a resposta incluirá Raphael Belo Xote. O nome artístico surgiu numa homenagem a duas grandes paixões da vida: Belo, numa referência ao distrito de Belmonte, no Crato, onde nasceu, e o xote ao consagrado ritmo nordestino.

Nos CDs e shows, mescla composições próprias e de amigos, como “Coração acelerado” e “Meu dengo”, a clássicos do mais autêntico forró. Neste 15 de julho, fará show no Festival Expocrato, numa noite que terá também entre as atrações Ítalo e Renno. Comanda, ainda, um programa ao vivo numa rádio do Crato, nas tardes de sábados, o “Canta sanfoneiro”, sempre com convidados.

Tenho uma banda e valorizamos sempre a formação do xote, baião, da marchinha de São João. O período dos meses de junho e julho sempre é bom, mas no decorrer do ano também fazemos muitos shows
Raphael Belo Xote, sanfoneiro e ex-aluno da Solibel

Filho de agricultores, Carlos Raphael dos Santos Silva, 33 anos, iniciou-se precocemente na música graças à Solibel, projeto idealizado pelo Monsenhor Ágio Augusto Moreira. Começou no coral infantil, aprendeu instrumentos de percussão, flauta, violino até receber um convite do sacerdote para tocar acordeon. “Ele via que eu ficava brincando nas teclas do piano e disse que tinha uma surpresa. Me mostrou esta Sanfona Universal, de 40 baixos. É a mesma que hoje está sendo usada por novos alunos”, diz, ao pegar carinhosamente o instrumento. No entanto, não sabe precisar quando ocorreu esse fato: “Já tem muito tempo, porque só de carreira no forró, eu tenho 15 anos”.

Raphael não apenas se aprimorou no instrumento como se juntou a outros colegas da Solibel para montar a Banda Belo Xote. Começaram a tocar em festas do Cariri, porém, com o tempo, ele sentiu a necessidade de partir para uma carreira solo. Aos 33 anos, está com agenda lotada nos fins de semana, ultrapassando os limites do Cariri. Pernambuco, Paraíba e Piauí, onde tiver gente que gosta de forró, pode estar presente. “estou bem em nível de Nordeste, não que eu não queira ser nível nacional”.

Seguindo esse caminho, apresenta repertório tradicional, incluindo Luiz Gonzaga, Dominguinhos, Marinês, Sivuca, assim como Alceu Valença e Zé Ramalho. "Tenho uma banda e valorizamos sempre a formação do xote, baião, da marchinha de São João. O período dos meses de junho e julho sempre é bom, mas no decorrer do ano também fazemos muitos shows. O pessoal do Cariri gosta muito do forró pé de serra. Graças a Deus estou no lugar certo”.