Safoneirinhos

Fertilidade musical no sertão

Texto: Cristina Pioner

A vida rural e a sanfona são as paixões de Luis Porfírio Feitosa de Sousa, 16 anos. O jovem, de pouca conversa e corpo franzino, agiganta-se quando toca o instrumento, sempre incentivado pelo pai, Gerardo Feitosa, um homem modesto que se apresenta como puxador de fole, mas sozinho aprendeu a tocar sete instrumentos. Aos 4 anos, Porfírio do Acordeon ganhou a primeira sanfona de 4 baixos e, aos seis, tocava Brasileirinho no teclado. "Esse cabra sabe das coisas", pensou o pai à época.

Luis Porfírio Feitosa de Sousa, 16 anos
  • Quando aprendeu a tocar? 6 anos
  • Nasceu e mora em: Tauá
  • Referências musicais: Luiz Gonzaga, Oswaldinho, Sivuca, Dominguinhos e Renato Borghetti

Dito e feito, com dez anos o menino já estava afinadíssimo com a música de raiz, ainda assim, passou a frequentar a Escola Municipal de Música Professora Leolina Maciel Feitosa e Castro, mantida pela Prefeitura de Tauá até o fim de 2017, quando suspendeu as atividades. Enquanto fez parte da escola, tendo como professor Pedrinho do Acordeon, também integrou a Orquestra Sanfônica de Tauá, quando teve muitas oportunidades de levar o som do instrumento para além da sua cidade. Participou de eventos na Universidade de Fortaleza (Unifor), solenidades, além de programas de rádio e de televisão.

O momento mais marcante na trajetória musical de Porfírio, entretanto, ocorreu em 2013, quando teve a felicidade de subir ao palco, em Tauá, para tocar ao lado do seu ídolo, Waldonys. Na ocasião, mesmo com muita dor (havia caído da moto e levado 11 pontos no pé), o garoto não dispensou a chance. "Não pude nem botar um sapato, então fui de chinelo mesmo", recorda com emoção.

O segundo encontro entre Luís Porfírio e Waldonys aconteceu meses depois, durante o show na festa de São de Francisco, em Canindé. Desde então, o garoto vem se apresentando em festas, eventos e até na feira livre de Tauá, que acontece todos os sábados pela manhã. "Lá tem muitos sanfoneiros. Quando eu vou, coloco uma bacia e papoca tudinho", conta com satisfação o menino que chega a arrecadar na bacia em torno de R$ 200,00 por feira.

O dinheiro que Porfírio ganha com música investe em roupas, calçados, guloseimas e outras necessidades. Aluno do 2º ano do Ensino Médio na rede pública, deseja ainda mudar para uma escola particular e continuar na localidade da Fazenda Jordão, zona rural de Tauá, onde a família possui um sítio. Costuma ajudar o pai na lida com os animais e confessa ser feliz com a vida no campo. "Eu não gosto da cidade, gosto de ficar no sítio. Lá é muito calmo e bom demais", compara.

Porfírio sempre foi incentivado pelo pai, Gerardo Feitosa, que aprendeu a tocar sozinho sete instrumentos Foto: Helene Santos

Da casa da família no Centro de Tauá, o sanfoneirinho nos leva até a Fazenda Jordão, distante uns três quilômetros da sede, para mostrar a sua morada preferida. Dali, seguimos por mais um quilômetro para conhecer a casinha de taipa, onde o menino nasceu. Embora esteja vazia, ela tem história, vida e sentimento para a família Feitosa. "Meu pai não deixa desmanchar essa casa por nada", diz o garoto do Sertão dos Inhamuns.

Igualmente ao pai, Porfírio sente orgulho das origens e não se imagina vivendo longe de sua terra. Por outro lado, está sempre "viajando" por tempos distantes e ritmos da autêntica música de raiz. Quando ele se apropria da sanfona, exalta as referências ensinadas pelo pai, a exemplo de Luiz Gonzaga, Dominguinhos, Oswaldinho, Sivuca, Waldonys, bem como o gaúcho Renato Borghetti. São esses músicos que semeiam a fertilizam o talento de Porfírio Feitosa, um jovem com trajetória que promete render muitos frutos.