Safoneirinhos
Orquestra Sanfônica da Unifor

Acordes de uma infância feliz

Texto: Cristina Pioner

Apresentação da Orquestra Sanfônica da Unifor na Feira de Profissões promovida pela Universidade de Fortaleza em maio de 2018. É formada por 25 alunos da Escola de Aplicação Yolanda Queiroz Foto: José Leomar

Sentada com a sanfona no colo, como quem segura uma boneca, Marília ainda sequer encosta os pezinhos no chão, mas as mãozinhas hábeis já alcançam vários acordes. Aos 9 anos, ela está entre os 25 integrantes da Orquestra Sanfônica da Unifor, fundada em 2014 pelo chanceler Airton Queiroz (in memoriam). Composta por alunos e egressos da Escola de Aplicação Yolanda Queiroz, a ideia do projeto é fomentar, além da educação, a arte e a cultura na vida das crianças.

Nesses quatro anos de atuação, sobram entusiasmo e dedicação por parte dos alunos, sejam novatos ou "veteranos". Aos 13 anos, o "experiente" João Marcos Costa já deixou a Escola Yolanda Queiroz, porém continua na Orquestra Sanfônica, motivo de orgulho para o menino que ingressou no grupo aos 9 anos, ao lado de sua irmã gêmea Isabelly. Apaixonado pelo instrumento, João Marcos confessa: “O que eu mais gosto de fazer na minha vida é tocar sanfona”.

Na orquestra desde a sua criação, João Marcos é o mais experiente entre os 25 integrantes Foto: Helene Santos

Já Marília Souza é uma das mascotes do grupo. Ingressou em 2017, logo após ter acesso à Escola de Aplicação Yolanda Queiroz. "Fiquei sabendo do projeto e pedi à minha mãe para participar", lembra. Apesar de pequenina, fala como gente grande ao explicar que a sua responsabilidade aumentou: vai à escola, faz as tarefas, aprende a sanfona e ainda arruma tempo pra brincar com irmãozinho mais novo.

Eu era criança, trabalhava na roça e sabia das dificuldades que teria pela frente. Então, pedi aos meus pais para morar em Tauá, com outra família, para poder estudar. Lá eu conheci a sanfona e aprendi a tocar" Pedrinho do Acordeon, professor de música

No começo, Marília admite que não gostava das apresentações, mas agora pensa diferente. "Eu me divirto tocando, e o meu pai fica até orgulhoso quando vê os vídeos da Unifor. Quando crescer, quero ser sanfoneira", arremata.

Silézia Franklin é enfermeira por formação, sanfoneira autodidata e entusiasta da cultura nordestina. Atuando no Núcleo de Atenção Médica Integrada (Nami/Unifor) há mais de 40 anos, a professora desejava contribuir com algo mais concreto para as crianças. Apaixonada pelo instrumento desde os 4 anos, quando ganhou a primeira sanfoninha, Silézia diz acreditar no poder de transformação por meio da música."Ela harmoniza espiritualmente e pode ser uma oportunidade de trabalho digno no futuro destas crianças", compara.

Marília, 9 anos, é recém-chegada à Orquestra, mas já revela grande intimidade com a sanfona Foto: Helene Santos

Desejo semelhante é de Matheus Souza, 11 anos, há poucos meses no projeto. Antes ele já teve experiência com violino e flauta transversal, mas agora está apaixonado pelo instrumento e sonha ter o seu próprio modelo. Para o futuro, Matheus planeja ser sanfoneiro e cursar faculdade de música.

Silézia Franklin dá aulas, em parceria com Pedrinho do Acordeon, por acreditar no poder de transformação por meio da música Foto: Helene Santos

Essa mesma paixão pela sanfona é compartilhada pelos professores do projeto: Pedro Feitosa e Silézia Franklin. Conhecido como Pedrinho do Acordeon, com formação acadêmica na área de música, ele se desloca semanalmente de Tauá, a 344 quilômetros de Fortaleza, para ensinar às crianças na Unifor. Nos dias de folga, o professor também dá aula particular de música.

Durante as aulas, Pedrinho e Silézia contagiam com o olhar amoroso dos alunos pelas sanfonas. Lá, todos os ritmos são bem-vindos, mas é a música regional, de raiz, que prevalece nos ensaios e nas apresentações da Orquestra Sanfônica da Unifor. Luiz Gonzaga, Dominguinhos, Waldonys, dentre outros são interpretados com satisfação. "Me sinto muito feliz e realizado em ver transformação destas crianças com a valorização da nossa cultura, da música de qualidade e da sanfona", explica Pedrinho. As aulas acontecem todas as segundas e terças-feiras, nos dois períodos.

O processo de aprendizagem da sanfona não é fácil, pois exige atenção redobrada para conciliar os movimentos das mãos no teclado, baixo e fole. "Alguns têm mais facilidade, outros não, mas todos são capazes de aprender este instrumento", destaca Pedrinho. Tanto é que a Orquestra já completou quatro anos e vem contabilizando inúmeras apresentações para além do Campus da Unifor. Além da sanfona, a Escola de Aplicação Yolanda Queiroz oferece aulas de piano, violino e flauta, conforme a afinidade e o interesse de cada criança.

Exemplo que vem do sertão

A Orquestra Sanfônica da Unifor nasceu a partir de uma experiência de sucesso da Escola de Música Leolina Maciel, de Tauá, no sertão do Ceará, na qual Pedrinho do Acordeon ensinava para dezenas de crianças, jovens e adultos. Numa das apresentações do grupo, presenciada pelo então chanceler Airton Queiroz (in memoriam), veio o desejo de implantar projeto semelhante em Fortaleza, para as crianças da Escola de Aplicação Yolanda Queiroz.

"Isso aconteceu em janeiro de 2014, no mês de junho já começamos a ensaiar com as crianças e, um mês depois, fizemos uma apresentação com o nosso padrinho Waldonys. Esse projeto é desenvolvido por meio da Divisão de Responsabilidade Social da Vice-Reitoria de Extensão da Unifor, e sempre foi tratado com muito carinho, e continua sendo", destaca Pedrinho.

O mesmo não ocorre com a Escola de Música de Tauá que, desde o ano passado, teve suas atividades interrompidas. Pedrinho lamenta a falta de incentivo da atual administração, destacando a importância da música na vida das pessoas. “Eu era criança, trabalhava na roça e sabia das dificuldades que teria pela frente. Então, pedi aos meus pais para morar na cidade, com outra família, para poder estudar. Lá eu conheci a sanfona e aprendi a tocar”, conta orgulhoso com as oportunidades que teve e vem tendo por meio da sanfona.