Safoneirinhos
Museu Luiz Gonzaga

O museu do menino em homenagem ao Rei do Baião

Texto: Germana Cabral

Se sua intenção é visitar o Museu Luiz Gonzaga no distrito de Dom Quintino, a 25 quilômetros do Crato, um conselho: vá sem pressa, pois o idealizador é bom de conversa. Fala muito, e com paixão, sobre o homenageado e ícones do sertão nordestino. Tem carisma inversamente proporcional à pouca idade. Talvez Pedro Lucas Feitosa seja o mais novo fundador de um museu no Brasil, quiçá do mundo. Aos oito anos, abriu o espaço que se destaca no bucólico lugarejo de 2.500 habitantes. O menino é notícia na imprensa nacional, participa de programas de TV, inspira cordéis e protagoniza documentário exibido na Europa.

Pedro Lucas Feitosa, 13 anos
  • Idade: 13 anos
  • Nasceu e mora em: Crato (CE)
  • O que fez: Criou o Museu Luiz Gonzaga aos 8 anos de idade
Pedro Lucas é apaixonado pela música de Luiz Gonzaga desde os 5 anos. Aos oito, após conhecer o Museu Luiz Gonzaga (Exu), criou o próprio museu em homenagem ao Rei do Baião

“Vou contar primeiro minha história toda”, avisa assim que chegamos à casa-museu, uma estrutura de taipa e chão de terra batida, herança de sua bisavó, a dona Maria Bindá. A paixão pelo velho Lula vem desde os cinco anos, quando numa festa junina na escola ouviu pela primeira vez “Asa Branca”. Voltou para casa cantarolando o clássico sem saber a letra direito. “Sempre que eu errava, minha tia Roseane consertava. Ela viu que estava muito interessado, então me deu um CD de Luiz Gonzaga, inclusive a gente tem esse CD no museu”, diz, orgulhoso do acervo que conseguiu reunir nesses cinco anos, a maioria de doação.

Nenhuma peça pertenceu de fato ao Rei do Baião, porém tudo faz referências a ele ou lembra a vida sertaneja. Desde a fachada, com ilustração do artista local Gildim, até a sala onde expõe fotos, gibão, imagens de Padre Cícero e Frei Damião, discos, zabumba e triângulo, dentre outras peças. A sanfona, que ganhou do amigo Hélio Diógenes, do Fã Clube Eterno Cantador - Pau dos Ferros (RN), ocupa lugar especial, assim como o chapéu de couro comprado na primeira vez que visitou o Museu Luiz Gonzaga de Exu.

No livro de registro, há mais de 1500 visitantes. Esse número é maior ainda porque muitos esquecem de assiná-lo

Dentre os quadros nas paredes, muitas fotos do ídolo e de sanfoneiros nordestinos. Exibe, ainda, certificado de honra ao mérito recebido, em 2017, da Secretaria Municipal de Cultura de Exu em reconhecimento ao seu trabalho de divulgação da memória do rei. O som ambiente, é claro, toca baião. Ah! tem até livro de presença, com 1.500 assinaturas, e souvenirs cuja renda é revertida para a manutenção, pois não recebe patrocínios nem cobra pelo acesso. Tudo é fruto do esforço e ajuda da família de agricultores, a Feitosa, que mora vizinho à sede.

O museu nasceu após o pai-avô, seu Antônio Bindá, fazer-lhe uma surpresa: “Em 2013, papai me acordou cedinho, e disse: 'vamos lá pro museu de Luiz Gonzaga em Exu'.Fiquei alegre, conheci o Parque Asa Branca, e tudo mais”. De volta pra casa, uma ideia não lhe saía da cabeça. Era a oportunidade de o distrito ganhar uma atração: “Como aqui em Dom Quintino não tinha nenhum ponto turístico, eu resolvi criar o Museu”.

No momento da nossa visita, em maio, o equipamento estava em obras: “as coisas estão fora do lugar porque a gente está em reforma. O paiol será o armazém e a área da cozinha abrigará a minibiblioteca, o escritório e o estúdio para o nosso canal no YouTube: “Seu Luiz velho macho”, justifica.

O maior sonho de Pedro Lucas é saber tocar a sanfona de 80 baixos que ganhou de presente Foto: Helene Santos

Com ajuda de familiares e amigos, Pedro Lucas está à frente da administração à catalogação do acervo, além de realizar atividades culturais como o “Café conversa”, em parceria com a Academia de Cordelistas do Crato. O garoto é convidado para ministrar palestras com o tema “Luiz Gonzaga, os santos e cangaceiros” ou sobre a própria iniciativa, como fez no Museu Cais do Sertão, em Recife. Também participa das edições do Cariri Cangaço, a exemplo das realizadas em Fortaleza e Poço Redondo (AL).

“Pedro Lucas Feitosa, O ‘minino’ do museu do Gonzagão”, de autoria de Francisco de Assis A.S, e “História de um fã”, de João Martins

Dentre os eventos já promovidos no distrito, a 2ª Mostra Cultural em Dom Quintino, em fevereiro de 2016, ficou marcada pela presença de sanfoneiros ilustres e do pesquisador da obra de Luiz Gonzaga Paulo Vanderley, que já visitou o Museu várias vezes e é grande admirador do trabalho realizado pelo cratense: “Pedrinho é fanstástico, fiquei muito amigo dele”.

Paulo conta que foi convidado para fazer uma palestra nessa mostra e ficou emocionado com o cenário que encontrou: “Era no terreiro próximo ao museu. Luzes penduradas, 200 cadeiras arrumadas, palcozinho armado. As senhoras declamando literatura de cordel e grupos de danças. E por essas ironias do destino, o Chambinho, aquele que fez Luiz Gonzaga no filme “Gonzaga: de pai pra filho”, meu amigo, ía fazer um show em Juazeiro do Norte (vizinho ao Crato), junto a Targino Gondim, que é da Bahia. Convidei os dois pra chegarem de surpresa. Eles subiram ao palco e cantaram, chega fico arrepiado, coisa mais linda. Havia umas 300 pessoas. É quando a gente sente a presença, essa coisa gonzagueana, essa energia”, recorda o pesquisador.

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Em meio a tantas responsabilidades, Pedro Lucas se dedica ao colégio, no qual cursa o 8º ano do ensino fundamental. Estuda pela manhã e logo que volta, ao meio-dia, cumpre o ritual: abre o museu, coloca a música e começa a viver no mundo fantástico do Gonzagão, que faleceu 15 anos antes de ele vir ao mundo.

(...) No município do Crato,
No Distrito de Dom Quintino
Eu fiquei emocionado
Com a história de um menino
Quem tem orgulho de dizer
Que trouxe um dom ter
O sangue nordestino “História de um fã”, de João Martins

Quando o assunto é futuro, fica pensativo, mas responde logo: “olha eu imagino fazer tanta coisa, tanta coisa mesmo. Adoro fotografia, filmar, tripé, câmera, quero fazer curso de fotografia, mas eu quero mesmo é ser museólogo. Adoro museu, tudo que esteja ligado a coisa antiga, história de Luiz Gonzaga, ao cangaço, e às coisas do Nordeste em geral, eu amo o Nordeste”.

Aprender a tocar sanfona é outro imenso desejo, mas esse a curto prazo. Pedro Lucas até já fez aulas, contudo ainda não consegue dominar o instrumento. Nem por isso deixa de exercer o lado musical. Com um primo de 10 anos, montou a banda “Os dois do sertão”. Ele no triângulo, Kaio no zabumba.

Embora tenha somente 13 anos, a vida de Pedro Lucas já daria um filme, não acha? O jornalista mineiro Sérgio Utsch apostou neste potencial e dirigiu seu primeiro curta-metragem. “O Menino que Fez um Museu” (The boy who made a museum) estreou no Brasil em janeiro de 2018, na programação da 21ª edição da Mostra de Cinema de Tiradentes, em Minas Gerais, e já foi exibido no terreiro do Museu Luiz Gonzaga.

“Sérgio, com um monte de gente, passou uma semana aqui em 2016. Eu era bem novinho, agora o filme tá rodando o mundo”, comemora o protagonista. Esse giro começa no circuito de festivais de cinema da Europa. Será apresentado no próximo dia 27, no River Film Festival, em Pádova, na Itália. “A história desse cabra é tão inspiradora que me levou junto com um grupo de amigos ao Sertão do Cariri. E virou um documentário. E foi parar numa tela de cinema. E não para de encantar gente mundo afora. Pedro Lucas é o Brasil que me enche de orgulho”, definiu numa postagem em uma rede social o jornalista-diretor, que reside em Londres.

Um pouco mais crescidinho, é o próprio Pedro Lucas quem está produzindo um autodocumentário, auxiliado pelo primo Kaio Everton Feitosa. “Gravamos no celular, e eu edito no computador. A expectativa é que ‘Minino do Museu’ seja lançado no nosso canal do Youtube no fim de agosto”. O trailer já está disponível. Esse “minino” é mesmo “Danado de bom”, como sugere o título de um dos sucessos do Rei do Baião.