Safoneirinhos

Uma filosofia de vida

Texto: Germana Cabral

Da menininha de quatro anos que queria tocar a sanfona do pai, surgiu uma jovem apaixonada pelo autêntico forró pé de serra. É um dos nomes mais fortes do ritmo no Cariri. Faz apresentações na região e em estados vizinhos. Anualmente, Maria Luiza reúne uma multidão em show durante a Romaria de Finados. Os devotos do Padre Cícero formam um público fiel e são responsáveis por grande parte do sucesso do CD “Rec & play” (2015), com 4 mil cópias vendidas, e do DVD “Orgulho de ser nordestino" (2012), com 10 mil.

Maria Luiza Santos de Souza, 20 anos
  • Nasceu em: Mossoró (RN)
  • Mora em: Juazeiro do Norte (CE)
  • Referências musicais:Luiz Gonzaga, Dominguinhos, Elba Ramalho, Waldonys, Flávio Leandro e Luiz Fidélis

No horto, onde fica a estátua do Padre Cícero e ocorreu nosso encontro, ela chamou atenção dos visitantes ao dar uma palinha. “Tenho repertório para umas quatro horas de show”, afirma a artista nascida em Mossoró (RN) e residente em Juazeiro do Norte desde os quatro anos. Nessa seleção, inclui de clássicos de Luiz Gonzaga e Dominguinhos às autorais, a exemplo do xote “Volta por cima”. Tem até “Meu erro” (Paralamas do Sucesso) em ritmo de forró: “Dou uma misturada para agradar ao máximo de pessoas possíveis”.

Quero fazer mestrado em Etnomusicologia, e continuar investindo nos shows e defendendo esta bandeira: Tenho a certeza de que o forró, para mim, não é só um estilo musical, é uma filosofia de vida que levo

Essa morena brejeira, extrovertida, um pouco menina, meio mulher, toca vários instrumentos, porém o predileto é mesmo a sanfona. Usa o modelo Contello de 120 baixos, que o pai, Antônio Ferreira, herdou do avó João. E por falar no pai, diz nunca ter visto até hoje um cara mais forrozeiro do que ele, o seu grande incentivador, empresário e fonte de inspiração.

Quando criança, estudou anos teclado, depois piano, cavaquinho, guitarra até chegar à sanfona a partir dos 12 anos. “Meu prazer foi enorme, da minha família também. Queria muito, me dediquei muito mais”, recorda. Ainda treina, pelo menos, duas horas e meio por dia e está no primeiro semestre do Curso de Música da Universidade Federal do Cariri (UFCA). Planeja fazer mestrado em EtnoMusicologia, se possível em Portugal, e continuar investindo nos shows, festivais de sanfona e defendendo esta bandeira: “Tenho a certeza de que o forró, para mim, não é só um estilo musical, é uma filosofia de vida que levo”.

É fã de Luiz Gonzaga, Dominguinhos, Waldonys, Zé Dantas, Elba Ramalho e Flávio Leandro, dentre outros representantes fiéis da música nordestina. Do cenário caririense, cita dois que participaram de seu DVD: Fábio Carneirinho e Luiz Fidélis. Desse último, gravou sucessos como “Rec & play” e “Dor de amor”.

Para a garota, Luiz Fidélis é o “maior compositor de forró do Cariri”. É dele também “Pedido de um matuto”, uma das músicas que os devotos mais gostam cuja letra roga a Padre Cícero que ele leve um recado a Deus. “Sempre gostei muito de tocar para romeiros, passam um ano todo pra vir, mas quando estão aqui não dormem, e dançam forró até o dia raiar, é realmente uma festa”.

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Nos oito anos de carreira, tocou com grandes nomes do autêntico forró. Quem lhe iniciou em público, na Igreja de São Miguel, foi Fábio Carneirinho. O primeiro show profissional ocorreu em Bodocó (PE), “beirando os 15 anos de idade”. Já subiu ao palco da “Sala de reboco”, renomada casa de arrasta-pé do Recife, ao lado de Targino Gondim e da nova formação do Trio Nordestino. Sua banda chega até 12 músicos, depende do gosto do freguês e da ocasião.

Em outro momento inesquecível, há três anos, tocou “Feira de mangaio” (Sivuca-Glorinha Gadêlha) com Elba Ramalho na cidade de Barbalha. “Foi uma honra. Minha emoção foi ainda maior por se tratar de uma mulher em que me inspiro não só como cantora, mas como pessoa”. O encontro com Waldonys, em um programa de TV, no ano de 2016, é igualmente lembrado com carinho. “Realizei um sonho”.

Satisfação também foi participar da web série “Orquestra Sanfônica de Exu”, que reuniu 20 músicos nordestinos exclusivamente para esta homenagem a Luiz Gonzaga. Numa iniciativa de O Boticário, o projeto incluiu um show conduzido pela cantora Lucy Alves, com os mestres sanfoneiros Targino Gondim e Luizinho Calixto. Um público estimado em cinco mil pessoas prestigiou a gravação, realizada em maio de 2017, na terra natal do Rei do Baião. O que falta mais para Maria Luiza? “Sonho em ter uma sanfona da marca Scandalli, esse é o sonho de todo sanfoneiro”.