Safoneirinhos

Indiozinho sertanejo

Texto: Cristina Pioner

De origem Anacé, o pequeno Kayro Oliveira, 11 anos, mora com a família numa reserva indígena em Caucaia, na Região Metropolitana de Fortaleza, mas não usa cocar nem flecha. Prefere gibão, chapéu, sandálias de couro e a sanfona para se "defender". Sim, é com esse instrumento e a música nordestina que vem conquistando fãs pelo País afora.

Kayro Oliveira, 11 anos
  • Quando aprendeu a tocar? 6 anos
  • Nasceu e mora em: Caucaia
  • Referências musicais: Luiz Gonzaga, Dominguinhos, Waldonys, Chambinho

Desde a participação no The Voice Kids Brasil 2018, programa musical da Rede Globo, o sanfoneirinho autodidata reafirma seu talento, aumenta o número de apresentações e ganha muitos fãs: “Não posso tirar o pé daqui, se eu dou três passadas, o pessoal quer tirar foto. É uma loucura medonha e todo fim de semana tô fazendo umas tocadinhas”.

Aluno do 5º ano e dedicado aos estudos, em especial à matemática, Kayro também se garante na redação, ou melhor, na composição de letras. Em parceria com o músico Jonas Alves, compôs a “Recordando Gonzagão”. Além disso, domina a sanfona, toca violão, teclado, escaleta e arranha na gaita de boca. Tem ouvido bom e ritmo próprios. O gosto musical herdou do pai Erandir e dos avós Antônio e Roginer, ambos admiradores de Luiz Gonzaga e Dominguinhos, dentre outros artistas nordestinos. O primo Moraes do Acordeon é um de seus maiores incentivadores e também considerado “um professor” pelo garoto.

Simone e Simaria são legais, elas ficam brincando com a gente. Elas me convidaram que quando fizesse show em Fortaleza eu tocaria com elas no palco Kayro Oliveira, sobre suas técnicas no The Voice Brasil Kids 2018

Antes de completar três anos, ele criou sozinho uma sanfoninha de papelão para brincar. “Saía dentro de casa cantando 'Xodó', de Dominguinhos, e Asa Branca, de Luiz Gonzaga”, relembra. Depois, aos seis anos, ganhou o instrumento de oito baixos, presenteado pelo avô Antônio, com o qual fez a primeira apresentação numa feira cultural no Siupé (São Gonçalo do Amarante). Aos 8 anos, conquistou a segunda sanfona, de 32 baixos, comprada com sacrifício pela família e ainda com dinheiro arrecadado com rifas.

A estreia oficial do instrumentista nos palcos aconteceu aos 7 anos, quando passou a receber os primeiros cachês. Apresentou-se ao lado do Chambinho (artista que interpretou o Rei do Baião, no cinema, com o filme “Gonzaga: De pai pra filho”) e abriu shows de cantores famosos, como, por exemplo, os de Vitor & Leo e Gusttavo Lima.

Em meio ao milharal na aldeia, Kayro reúne a família: o pai Erandir, a irmã Darlen, a mãe Luiza, a avó Eliane, o irmão Agnelo e o avô Roginer Foto: JL Rosa

O grande incentivador de Kayro, além da família, é o sanfoneiro cearense Waldonys, que conheceu o garoto por intermédio de seu pai, Eurides. Admirados com o talento da criança, pai e filho decidiram presenteá-lo com uma sanfona de 80 baixos que chegou às mãos de Kayro no dia 25 de dezembro de 2016, um Natal inesquecível para o menino.

Desde então, ele nunca mais se separou da sanfona branca, companheira de todos os momentos. Exibindo uma aliança no dedo, ele explica com a "gaiatice" tipicamente cearense: "estou casado com a música". E pelo visto, esse casamento é eterno. Talento e carisma ele já tem.

Na casa simples onde mora com a família, Kayro é o caçula do casal Erandir e Luiza Gil. No pequeno quarto-estúdio, guarda com carinho a nova e as duas velhas sanfoninhas, além dos demais instrumentos. Na parede, uma galeria de quadros confirma seus ídolos: Gonzagão, Sivuca, Dominguinhos, Waldonys, Dorgival Dantas, Oswaldinho, dentre outros artistas regionais. Também é fã de seu Espedito Seleiro, embora ainda não o conheça pessoalmente. O mestre artesão de Nova Olinda, no interior do Ceará, o presenteou com toda a indumentária: gibão, chapéu, sandália e as alças para segurar a sanfona junto ao corpo. Vestido de sertanejo, com carisma e cantando "Eu só Quero um Xodó" (Anastácia e Dominguinhos), o pequeno conquistou o público logo na sua estreia do programa global.

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Na sequência, ele foi eliminado, mas diz que valeu a experiência, pois ganhou novos amigos e conheceu o Rio de Janeiro. No programa das tardes de domingo, chegou à segunda fase (batalhas): “Foi bom. Fiz amizades, os conhecimentos, eles ensinam muita coisa sobre a música, do jeito que é pra ficar no palco”.

A preferência musical de Kayro é realmente peculiar. Ainda muito pequeno, ele já pedia aos pais presentes como CDs ou DVDs de artistas regionais, um gosto nada comum entre as crianças dessa idade. Ele também já lançou o próprio CD “Kayro do acordeon”, cujas 800 cópias estão esgotadas. Na época, o pai recorda que vendeu até um "fiatzinho" velho para produzir o material, contando ainda com a ajuda da família e dos amigos.

Mesmo com toda a seriedade dedicada à música, continua sendo a mesma criança, estudando, brincando com os amigos, jogando bola, bila, andando de bicicleta e sonhando com o futuro, porém Kayro ainda tem muito tempo para mostrar todo o seu talento e o valor para a cultura regional. Em breve, quer abrir as portas de sua casa para a garotada da reserva que desejar aprender a tocar. Por isso, guarda suas duas primeiras sanfonas para as aulas.