Safoneirinhos

Defesa em dobro do forró de raiz

Texto: Germana Cabral

Em uma família apaixonada pela música nordestina, ter um sanfoneiro já seria enorme motivo de alegria. Para o casal Sávio Bezerra e Georgina Mendonça, no entanto, essa satisfação se traduz em dobro: os filhos Felipe e Rodrigo trilham um caminho promissor no cenário do forró pé de serra no Cariri. Os irmãos cresceram em meio à coleção de LPs de Luiz Gonzaga, histórias e vídeos sobre a importância do mestre para a música brasileira.

Felipe e Rodrigo, 18 e 15 anos
  • Nasceram e moram em: Juazeiro do Norte
  • Referências musicais: Luiz Gonzaga, Dominguinhos, Alceu Valença, Elba Ramalho, Jackson do Pandeiro e Trio Nordestino

Antes mesmo de tocarem sanfona, já eram notícia na imprensa do Ceará por serem pequenos fãs do Rei do Baião, a exemplo da Tv Verdes Mares, e terem formado uma dupla para cantar sua obra, acompanhados por um trio de sanfona, zabumba e triângulo. À época, Felipe tinha 10 anos, e Rodrigo, 8.

Vejo meus filhos como dois grandes advogados em defesa da cultura e da música nordestina. Tenho muito orgulho. É muito gratificante participar de um projeto deste mesmo sem ser músico, mas acreditando no talento dos meninos
Sávio Bezerra, pai da dupla

Mas o destino colocou na travessia desses juazeirenses o Cicinho do Acordeon. Foi ele quem acompanhou as crianças na festa de 50 anos do tio Totonho, em 2010. Além de sucessos do seu Luiz, cantaram uma paródia feita pelo pai de “Aquela sanfona branca” (Benito di Paula), em homenagem ao aniversariante. “Então, eu disse a Sávio: esses meninos cantam tão bem, precisam aprender também a tocar sanfona. Fico emocionado de ter contribuído. Felipe e Rodrigo têm uma grande vantagem: tocam e cantam”, afirma o músico, dono do CDI Studio e de uma oficina de consertos de sanfonas em Juazeiro.

Seguindo os conselhos do sanfoneiro, Felipe iniciou com aulas de teclado com o professor Hélio. Rodrigo fez o mesmo pouco tempo depois. Logo estavam aprendendo acordeon e o pai comprou-lhes a primeira sanfona: “Era pesada demais, mal podia com ela. Tinha 12 anos e de lá para cá a gente vem tocando”, recorda Rodrigo.

Para garantir o aprimoramento, treina na sanfona pelo menos uma hora por dia. Felipe, 18 anos, até já assina composições. O maior incentivador é o pai Sávio, que se divide entre as funções de empresário, produtor e compositor de várias letras cantadas pelos filhos. A mais recente incentiva a seleção brasileira de futebol. “É Gol é Gol Copa 2018” tem música e arranjo de Cicinho, gravada em vídeoclipe protagonizado por Rodrigo, 15 anos.

Assim, Sávio vai se realizando por meio dos garotos. “Eu até tive chance de tocar, meu pai comprou uma sanfona, tentei, mas não tinha o dom nem o talento”. E ressalta: “Vejo meus filhos, desde o início, como dois grandes advogados em defesa da cultura e da música nordestina. Tenho muito orgulho. É muito gratificante participar de um projeto deste mesmo sem ser músico, mas acreditando no talento dos meninos”.

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Felipe concluiu o ensino médio e pretende fazer faculdade de história, enquanto Rodrigo cursa o 2º ano do ensino médio e deseja se formar em engenharia de software. Porém, a ideia é conciliar as profissões e o forró de raiz. “A música nunca me atrapalha. Ela sempre me ajudou em projetos escolares. Então, é trazer uma profissão como projeto paralelo”, afirma Felipe.

Apesar de ferrenhos defensores do genuíno estilo musical do Nordeste, não radicalizam e até vislumbram um encontro com a atual geração do “forró pop”, como definem a música feito, por exemplo, por Wesley Safadão. “Não temos nada contra eles, futuramente podem ser até nossos amigos. Podemos até gravar juntos, quem sabe?”, diz Felipe.

Entretanto, Rodrigo enfatiza: “O forró representa a cultura do Nordeste, mas infelizmente tem esses outros estilos de músicas que estão surgindo agora estragando o nosso forró raiz”, enquanto Felipe complementa: “A gente está ajudando a salvar nossa cultura, mostrar o autêntico forró para a nova geração”.