Safoneirinhos
Entrevista com Paulo Vanderley

“Luiz Gonzaga é o maior artista brasileiro de todos os tempos"

Texto: Germana Cabral

No meio da multidão que acompanhava o cortejo funeral de Luiz Gonzaga, em Exu, a terra natal do Rei do Baião, um menino de 9 anos registrava tudo na filmadora do pai. Era 4 de agosto de 1989, dois dias após a voz do pernambucano ter se calado para sempre em Recife. Hoje, bancário, com formação na área financeira, Paulo Vanderley tem 38 anos e soma quase três décadas dedicadas à pesquisa sobre o Rei do Baião e ao forró.

O pesquisador Paulo Vanderley criou um site sobre a obra gonzagueana com mais de 7 milhões de acessos FOTO: Kleber A. Gonçalves

No seu apartamento em Fortaleza, que mais parece um museu, guarda acervo valioso, com discos, fotos, revistas, vídeos, obras de arte, livros autografados pelo pernambucano e réplicas de peças que Gonzaga usou em vida, a exemplo de gibão e chapéus. Inclui também referências a outros grandes nomes da música nordestina, sobretudo Dominguinhos, ou melhor, seu Domingos, como costuma se referir ao mestre que se tornou um grande amigo.

Além de pesquisador, Paulo criou um site sobre Luiz Gonzaga e a página “Isto é forró” no Facebook. Prestou, ainda, consultorias para projetos como o Museu Cais do Sertão, em Recife, o filme “Gonzaga: de pai para filho” (Breno Silveira ) e para o samba-enredo “O dia em que toda a realeza desembarcou na avenida para coroar o Rei Luiz do Sertão”, da escola de Samba Unidos da Tijuca, campeã do carnaval carioca em 2012.

Nesse mesmo ano, quando foi comemorado o centenário de nascimento de Gonzagão, Paulo lançou o site que contabiliza mais de 7 milhões de acessos e recebeu cerca de 19 mil emails (está em manutenção e voltará a ser visualizado até agosto de 2018). “Foi uma repercussão muito grande. Estou falando isso não pelo site nem por mim - mas para ressaltar a força avassaladora que tem Luiz Gonzaga. Incrível, naquele ano foi o auge, livro, revistas. Nenhum músico brasileiro chegaria perto dessa grandeza”.

Como você conheceu Luiz Gonzaga?

Paulo Vanderley - Quando morava em Exu. A minha infância foi no interior do Nordeste. Meu pai, Paulo Marconi, era gerente do Banco do Brasil e ficamos mudando de cidade em cidade. Morava em Canapi (AL), eu tinha seis, sete anos, quando meu pai chegou e disse: “olha, eu fui transferido de novo. Já íamos para a quinta cidade. Aí meu pai falou, ‘oh, nós vamos morar na terra de Luiz Gonzaga”. Eu e minhas duas irmãs, a gente ficou assim: ‘Será que nós vamos conhecer ele? Já cheguei a Exu querendo saber onde estava Luiz Gonzaga. Meu pai passou a conhecer a cidade, e tal, e terminou se aproximando do sanfoneiro famoso. Ficaram muito amigos. Ele era cliente do banco e chegou a ir à nossa casa para almoçar. Meu pai até comprou um carro, um Furglaine Ford, que era dele. Moramos três anos na cidade.

Na infância, quando morava em Exu, Paulo (à esquerda) teve o privilégio de conhecer Luiz Gonzaga FOTO: Arquivo pessoal

Quais as lembranças que tem do Rei do baião?

Paulo - Luiz Gonzaga era de uma elegância, ele era uma entidade, chegava assim, você sentia essa energia. Eu era o menino que registrava imagens com a filmadora do meu pai, até o enterro de Luiz Gonzaga eu filmei do meio da multidão. Meu pai estava em cima do caminhão do Corpo de Bombeiros. Foi nesse momento que eu tive dimensão do quem era Luiz Gonzaga e comecei a colecionar tudo que era relacionado a ele. Logo depois que ele faleceu, em 2 de agosto de 1989, meu pai também ficou muito próximo de Gonzaguinha, que começou a mandar o acervo de Luiz Gonzaga para ele guardar até a inauguração do Museu em Exu. Sanfona, gibão, chapéus, tudo ficou lá em casa. Cheguei a levar muito carão do meu pai quando ele me pegava usando as peças (risos). Eu também registrei na velha filmadora, aquela ali (apontando para a peça rara na estante da sala), a carreata que levou as peças da minha casa até o museu e também sua inauguração.

Por que a nova geração também se interessa pelo forró de Luiz Gonzaga?

Paulo - Na minha modesta opinião, ele é maior artista brasileiro de todos os tempos. E por que ele ainda é vivo? Um dia estava refletindo sobre isso. Fico imaginando, às vezes, numa noite de São João, aproximadamente 5 milhões, 10 milhões, 15, 20 milhões de pessoas, simultaneamente vão estar ouvindo alguma música de Luiz Gonzaga, seja em Caruaru, Fortaleza, seja no Crato, isso acontece no Brasil há mais de 60, 70 anos. Então, essa é uma das características do Gonzaga, que não é fácil, aliás é dificílimo você encontrar isso, capacidade de falar direto no coração das pessoas. Por isso, é um artista que se renova, até os dias atuais, sem nenhuma forçação de barra, sem ser imposto. Naturalmente as pessoas que passam a conhecê-lo, passam a admirá-lo, isso é transmitido de geração em geração. Você vê que, com todo esse massacre, com toda imposição dessa coisa que vem goela abaixo, de forma massificada, da música popular brasileira, o Gonzaga vem resistindo, vem se mantendo.

Na sua opinião, o que pode ser considerado realmente forró?

Paulo - A grande primeira definição de forró era o lugar da festa. Dizia-se. ‘Vamos pra festa, vamos pro forró’. Nos anos 1940, anos 1950, passou a ser ritmo e depois gênero que englobava toda música relacionada ao Nordeste do Brasil, como baião e xote. Quando se fala em forró pé de serra, sou um pouco crítico em relação a essa definição, pois pra mim esse forró pé de serra é tocado no pé da Serra do Araripe, pra mim só existe um forró, o forró da matriz poética, criada e reinventada por Luiz Gonzaga. Na hora em que eu chamo forró pé de serra, eu assumo que o que essas bandas musicais fazem é forró. E não é. Não é errado chamar forró pé de serra, mas as pessoas associam o forro pé de serra  ao triangulozinho, ao trio, mas hoje as apresentações de grandes sanfoneiros, originais, autênticos, são um mega show. Waldonys, Chambinho, Santanna, Petrúcio Amorim,  Chico Pessoa,  por exemplo. O próprio Luiz Gonzaga inovou. Tenho um disco dele, de 1974, com a música “O Fole roncou”, que traz guitarra, baixo, bateria.

Paulo tem rico acervo em seu apartamento referente à cultura nordestina, sobretudo ao Rei do Baião e a Dominguinhos FOTOS: Kleber A. Gonçalves
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Então, você defende a inovação?

Paulo - Sim, tem de inovar. O grande problema da inovação, na verdade, é descaracterizar a matriz. Se você pegar um disco de Wesley Safadão, que chamam de forró, não tem nenhum matriz  poética do forró, não tem zabumba, não tem triângulo, não entra em nenhum dos ritmos do forró, não dá pra chamar de forró, é o que está acontecendo com o sertanejo, pega a moda e vai se embora.. não tem nada a ver com sertanejo. É bem complexo.

Com quem Luiz Gonzaga aprendeu a tocar sanfona?

Paulo - Na verdade, o pai tocava sanfona de 8 baixos, e consertava sanfona. Gonzaga  começou a ouvir Januário. Com oito, nove anos já tocava, mas só comprou uma sanfona quando começou a trabalhar com o coronel Aires. Pediu um empréstimo a ele, foi até a cidade de Ouricuri e comprou. Tinha 12, 14 anos. Ele já tocava, mas era muito tímido. Foi quando aquela história da namorada, a Nazarena, que não deu certo, e ele, apaixonado, já com 17 anos foi embora para o Rio de Janeiro. Conseguiu comprar outra sanfona em São João Del Rei. Em Minas, também conheceu Domingos Ambrósio, em Ouro Fino, esse cara deu os primeiros toques pra ele de sanfona. Luiz Gonzaga era muito determinado, insistente, sabe aquela coisa da persistência, esse era Luiz Gonzaga. (… ). Ele queria cantar, mas de março de 1941, quando gravou o primeiro disco, até 1945, era só instrumentista. Depois, procurou os cearenses Lauro Maia e Humberto Teixeira e terminou gravando mais de 100 compositores.

Quais artistas famosos foram incentivados por Luiz Gonzaga?

Paulo - Ele tinha uma característica interessantíssima, uma ideia de que precisava fomentar novos artistas. Tinha uma percepção de identificar talentos, tanto forrozeiro, sanfoneiro quanto compositor. Ele viu, por exemplo, Dominguinhos tocando com o irmão, quando estava com 8, 9 anos na Feira de Garanhuns, foi pro Rio de Janeiro, e na hora em que voltou, deu logo uma sanfona para ele. Na verdade, Luiz Gonzaga presenteou artistas com mais 100 sanfonas ao longo da vida. Ele via a pessoa, encontrava o talento, e presenteava. Isso aconteceu também com Waldonys, Pinto do Acordeon e Luizinho Calixto, dentre tantos outros.

O que pode ser feito, então, para apoiar essa nova geração de sanfoneiros mostrada nesta reportagem?

Paulo - A gente precisa de mais iniciativas para incentivar essa turma, pessoas que dediquem um pouco do seu tempo, não necessariamente que seja ajuda financeiramente, mas pra incentivar. O que Chambinho fez com Cecília do Acordeon (ir visitá-la na casa dela, na zona rural de Redenção) é um belo exemplo. São pequenas ações que partem de cada um. Ariano Suassuna dizia o que Machado de Assis já definia: 'existe o Brasil real e o Brasil oficial'. O Brasil oficial não o conhece o Brasil real. Isso que vocês estão fazendo, esta reportagem, é o Brasil real, o Brasil que precisa ser mostrado. É essa menina, a Eduarda Brasil, que ganhou esse programa da Globo (The Voice Brasil Kids 2018). É do interior da Paraíba e fincou o pé de querer mostrar o que aprendeu desde criança.