Safoneirinhos

Alegria brotando da terra

Texto: Cristina Pioner

Na pacata e silenciosa Lagoa Comprida, zona rural de Ocara, distante 100 km de Fortaleza, Deisielly, de apenas 11 anos, é quem dá o tom da alegria. Na casa onde vive com a família, o único "luxo" são os instrumentos musicais: na sala, um teclado acoplado à caixa de som, no quarto, três sanfonas, cada qual com a sua história. Em meio a aridez da vida, a garotinha vai semeando seus sonhos: ser sanfoneira e ajudar financeiramente a família.

Deisielly Roberto da Silva, 11 anos
  • Quando aprendeu a tocar? 7 anos
  • Nasceu e mora em: Ocara
  • Referências musicais: Luiz Gonzaga, Dominguinhos e Waldonys

Deisielly não tem cerimônias na hora de falar, é simples e espontânea. Mas quando o assunto é forró pé de serra parece uma pessoa adulta. Seu gosto musical também não é infantil, destaca como ídolos Luiz Gonzaga, Dominguinhos e o cearense Waldonys, o qual teve a alegria de conhecer, "ao vivo", durante uma edição do jornal CE TV, da TV Verdes Mares, exibida em julho de 2017.

As primeiras músicas que toquei na sanfona, com a ajuda do meu pai, foram “Parabéns a você” e “Asa Branca”. Era como um verme, sabe? Eu queria muito aprender, aí eu errava, errava, e fazia tudo de novo

Além de ter realizado o grande desejo, poucos dias após o primeiro encontro, Deisielly foi presenteada por Waldonys com uma sanfona nova de 80 baixos. "Ela é espetacular", define a menina com satisfação. Antes disso, tocava com um modelo menor e bem mais simples, de 48 baixos, comprado com sacrifício pelo seu pai, o agricultor Valderir Roberto da Silva. "Ele fez até uma festa para arrecadar o dinheiro", recorda com gratidão.

Desde muito cedo, começou a ter gosto pelo forró pé de serra. Por volta dos 6 anos, ela já namorava a sanfona do pai, comprada por ele em sociedade com um amigo, portanto, era uma semana pra cada um usufruir do investimento. Passado um tempo, Valderir comprou a parte do seu sócio, levando a sanfona de vez para a casa. À época, a menina nem conseguia ainda segurar o instrumento, por conta do peso e do tamanho.

Sem se dar por vencida, Deisielly lembra que subia na cama e ficava de joelhos para dedilhar os botões e o teclado. Era um feriado prolongado quando a menina investiu toda a sua energia para aprender. Com a ajuda do pai, primeiro ela tocou o “Parabéns a você” e, em seguida, a “Asa Branca “. "Era como um verme sabe? Eu queria muito aprender, aí eu errava, errava, e fazia tudo de novo", recorda aos risos. Depois disto, a pequena não soltou mais a sanfona.

Estudante do 5º ano, frequenta a escola na parte da manhã, quando retorna, almoça, faz as tarefas e então pega a sanfona para praticar. Por volta das 17 horas, troca o instrumento pela bicicleta, comprada com parte do cachê.

Deisielly vai à escola pela manhã. À tarde, faz as tarefas, treina a sanfona e, depois, anda de bicicleta Foto: Helene Santos

Neste ambiente de simplicidade, a sanfoneirinha vive uma infância feliz e cercada de admiradores. O professor João Paulo Maciel, amigo da família, é um deles. Sensibilizado pelo talento da menina e também com a falta de recursos financeiros, tem contribuído como pode na parte da comunicação, divulgação e na logística dos eventos.

Deisielly mora a 22 quilômetros da sede de Ocara e o acesso não é nada favorável pela estrada de terra. Mesmo assim, a pequena vem dando conta dos convites de entrevistas, shows e eventos culturais promovidos em Fortaleza e demais cidades do Ceará.

Clique na imagem para ampliar

O maior desafio agora é dar continuidade às aulas de sanfona, iniciadas com o professor Fransquinho Mela Pinto, bastante conhecido na região. Devido à distância, tem tido poucas oportunidades de aprendizado. O mesmo ocorre com as aulas de canto, ainda sem acesso. Nem por isso ela desiste de cantar e, "parecendo um verme", como costuma dizer, vai tentando, por conta própria, soltar a voz.

Em meio a tanta simplicidade, na hora da despedida surge um gesto de bondade: a família nos oferece alguns quilos de feijão e de jerimum, recém-colhidos do roçado. O caminho da sanfoneirinha pode ser até ser árido, mas é fértil e muito próspero à fartura em todos os sentidos.