Safoneirinhos

Com as bênçãos de Dominguinhos

Texto: Germana Cabral

Treine a sanfona, mas estude também no colégio. Esse conselho Cícero Paulo ouviu do mestre Dominguinhos, com quem ele se encontrou três vezes na vida. A derradeira foi no dia 13 de dezembro de 2012 no show em comemoração aos 100 anos de nascimento de Luiz Gonzaga. Ao lado do mestre, o menino de Juazeiro do Norte, aos oito anos, participou do histórico encontro de grandes nomes da música nordestina em Exu, terra natal do Rei do Baião. Dominguinhos morreria sete meses depois.

Cícero Paulo Ferreira Feitosa, 14 anos
  • Quando aprendeu a tocar? 6 anos
  • Nasceu e mora em: Juazeiro do Norte
  • Referências musicais: Luiz Gonzaga, Dominguinhos, Elba Ramalho, Hermeto Pascoal

Ao anunciá-lo, o consagrado sanfoneiro disse à plateia: “O Cícero Paulo é um garotinho que conheço desde pequenino, e ele me ligou hoje e disse: olhe, eu vou dar uma entrada no seu show. Aí eu digo, oxente, um pedido assim quem vai negar?” E o menino retribuiu: “Nesta noite, eu quero homenagear o mestre da sanfona, que é Dominguinhos, no centenário do Rei do Baião, e realizando meu sonho mais uma vez”. Juntos, tocaram “Abri a porta” (Dominguinhos e Gilberto Gil). “Ficou na memória, foi uma honra, infelizmente foi seu último show. Mesmo convivendo pouco com ele, me realizei”, afirma Cícero Paulo Ferreira Feitosa, hoje com 14 anos.

Na festa do centenário de nascimento de Luiz Gonzaga, em Exu, Cícero Paulo, então com oito anos, dividiu o palco com Dominguinhos Foto: Arquivo Pessoal

Dos conselhos do mestre, segue os dois. É prodígio tanto na sanfona quanto no colégio, no qual cursa o 9º ano do Ensino Fundamental, além de falar inglês fluentemente. Justifica tanta dedicação aos dois sonhos acalentados: ser médico neurocirurgião e ganhar a Copa Mundial de Acordeon, realizada na cidade de Turku, na Finlândia. Na carreira, já contabiliza participações no filme de “Gonzaga de Pai pra Filho” e na minissérie da Globo “Amores Roubados”.

Eu dedico meus estudos à sanfona e ao colégio. Quero ser médico e ganhar a Copa Mundial do Acordeon, na Finlândia. Não costumo fazer show nem canto, gosto mais de participar de festivais de sanfona Cícero Paulo

O interesse começou ainda pequenino ao ver o pai, Paulo das Chagas Feitosa, tocar as duas músicas que sabe até hoje na sanfona: Asa Branca (Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira) e Ana Maria (Santanna). “Tudo que meu pai fazia, eu gostava de fazer. Vendo ele tocar, me interessei e pedi uma sanfona pra mim”. Foram até uma loja, mas o Paulo achou caro (R$ 1.800,00). No entanto, de tanto chorar como uma criança que deseja muito um brinquedo, acabou ganhando o primeiro instrumento (48 baixos) aos 6 anos.

Se valeu a pena o investimento? O maior fã, incentivador e patrocinador garante que sim: “Ele é muito determinado. Está vencendo vários festivais de sanfona pelo Nordeste. Também já compramos para ele, há quatro anos, a sanfona Giulietti, trocamos por um carro. Custou, aproximadamente R$ 25 mil, era a mesma que Dominguinhos tocava. Um sonho dele. A gente se realiza vendo ele galgando e tocando”, afirma Paulo, um professor de matemática e mecânica de autos casado com a professora de inglês Cícera.

O próprio pai começou a lhe ensinar as escalas. Mas Cícero Paulo teve vários professores, a exemplo de Raphael Belo Xote, Hugo Linard, Genival do Cedro, Barrão, Dolores Marcolino. Atualmente, por conta do tempo integral no colégio, dedica apenas uma hora a cada noite à sanfona. Nos fins de semana, dobra esse tempo. “Quando meu professor Carlos Nogueira, da banda Toca do Vale, vem ao Cariri, faço aulas com ele. Quando tenho dúvidas, tiro com Genival do Cedro”.

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O irmão Pedro Gabriel, de 12 anos, é também companhia constante. Multi-instrumentista, além de sanfona, toca pandeiro, piano, zabumba e bateria, dentre outros instrumentos. “Eu gosto de tocar muito com meu irmão. Ele me ensina, eu o ensino, e a gente vai aprendendo juntos. Isso é bastante legal”, afirma Cícero Paulo. Nos poucos shows que costuma fazer, e mesmo assim para família ou amigos, Pedro Gabriel está ao seu lado. Desde os oito anos, participa de importantes festivais do Nordeste. No mais recente, o de Alagoinhas (BA), conquistou o primeiro lugar na categoria master adulta, enquanto o caçula repetiu o feito na mirim.

Mesmo não se apresentando nos palcos com frequência, mostra bastante desenvoltura quando tem oportunidade de tocar ao lado de suas principais referências musicais. Foi assim no palco do Anfiteatro do Dragão do Mar (Fortaleza), com Hermeto Pascoal, aos 9 anos, e em outras ocasiões com Dominguinhos, Waldonys, Cezinha, Oswaldinho. Dos encontros com Elba Ramalho, um show no Crato se tornou inesquecível. “Esse menino será o Dominguinhos do futuro”, profetizou a paraibana. Momentos eternizados em vídeos disponíveis no canal de Cícero Paulo no Youtube.