Safoneirinhos

O "brinquedo" sonoro da Pimentinha

Texto: Cristina Pioner

A primeira vez em que viu uma sanfona, tocada por seu Cícero, numa festa de reisado na casa do avô Agripino, a pequena Cecília entrou em desespero. Queria a todo custo pegar o instrumento como se fosse um brinquedo. Suas vontades não foram atendidas e dias depois, num passeio a Canindé, terra de São Francisco, a garota, com 7 anos à época, deparou-se com outra sanfona, que estava à venda por R$ 800,00. Apelou ao pai, Cleber Silva, porém retornou para a casa, na zona rural de Redenção, de mãos abanando.

Ana Cecília Araújo Costa, 10 anos
  • Quando aprendeu a tocar? 7 anos
  • Nasceu e mora em: Redenção
  • Referências musicais: Luiz Gonzaga, Chambinho e Lucy Alves

A menina, conhecida como a Pimentinha do Forró, não se deu por vencida, continuou insistindo, até que passados alguns dias, o pai abriu mão do dinheiro das férias, voltou no local e comprou o instrumento para a filha. "Agora pai, eu quero ir lá no seu Cícero para aprender a tocar", afirmava. Com poucas aulas, ela já estava interpretando as músicas de Luiz Gonzaga, seu maior ídolo, além de Chambinho e Lucy Alves, dentre outros artistas que representam a cultura nordestina.

Cecília já gravou dois CDs, Cecília do Acordeon – A Pimentinha do forró (2016) e Cecília do Acordeon (2017). Seu próximo passo é a gravação do seu DVD

A compra da segunda sanfona foi outra novela, que acabou virando a composição “A saga de Cecília”, com letra do tio Silvanar e musicada pela própria garota. A letra fala do bingo de um garrote e da festa com 14 sanfoneiros, sem cachê, para arrecadar o dinheiro. Tiveram tanta sorte que conseguiram o valor exato da sanfona, R$ 3.500,00. Desde então, Cecília não se aquietou mais, já gravou dois CDs, o primeiro em 2016, no estúdio do cantor Wesley Safadão, e o segundo em 2017, com o apoio da banda Strondo Zabumbada. O próximo passo é gravar um DVD.

A terceira sanfona veio por meio de um programa de TV, exibido em rede nacional. Com a sua participação, no fim de 2017, a menina ganhou alguns prêmios, dentre eles um novo instrumento, que precisou ser substituído por conta do peso. "Cecília tem um problema de coração, ela não pode fazer muito esforço físico e precisa de acompanhamento médico a cada três meses. Por isso, tivemos que trocar a sanfona por uma mais leve e apropriada ao seu tamanho", explica a mãe, Cícera Lucas, a Neidinha.

Somente neste ano de 2018, Cecília participou, por exemplo, do 11º Festival de Sanfonas de Limoeiro do Norte (CE) e das edições de Fortaleza e Poço Redondo (AL) do Cariri Cangaço Foto: Helene Santos

Afora esses cuidados, Cecília leva uma vida normal. Anda de bicicleta, brinca de boneca, embora prefira as de panos. Vaidosa, está sempre com as unhas pintadas e decoradas, mas revela um lado infantil quando mostra uma caixa repleta de laçarotes para o cabelo. A sanfoneirinha tem estilo próprio, é comunicativa e tem desenvoltura, tanto que foi cogitada para atuar em uma novela do SBT. Para isso, a família teria que se mudar para São Paulo, entretanto decidiu permanecer na localidade de Currais II, em Redenção, distante 70 km de Fortaleza. Mas não para de fazer shows em outras cidades. Somente neste ano de 2018, participou, por exemplo, do 11º Festival de Sanfonas de Limoeiro do Norte (CE) e das edições de Fortaleza e de Peço reondo (AL) do Cariri Cangaço.

O sanfoneiro Chambinho visitou Cecília na casa dela, na localidade de Currais II, em Redenção

A casa de Cecília do Acordeon já era bem conhecida na região. Agora está mais ainda. Numa das paredes externas, o amigo, poeta e ilustrador, Rafael Brito, desenhou a menina com a sanfona e alguns representantes da cultura nordestina. Nesta mesma casa, Cecília já recebeu uma visita ilustre, a do cantor e sanfoneiro Chambinho, que interpretou Luiz Gonzaga no filme "Gonzaga, de pai pra filho", de Breno Silveira.

Testemunha desse encontro inesquecível, Paulo Vandeley, pesquisador da obra de Luiz Gonzaga e amigo de Chambinho, narra com emoção detalhes deste dia: “Cecília é lindinha, maravilhosa. Eu a conheci e soube que tinha muita vontade de conhecer o Chambinho. Então, a gente levou ele lá na casa dela, na zona rural de Redenção. Menino, foi uma das coisas mais lindas que eu já vi na vida. Chambinho desceu do carro e eu fui estacionar, quando eu vi pelo retrovisor, Cecília estava pulando de alegria porque o Chambinho chegou lá, aquele pulo assim espontâneo, de menino, que a gente fica arrepiado. A Cecília tem coisas que são muito fortes, tem valor muito grande, isso é uma característica desses meninos (que tocam sanfona). Eles são muito puros, você percebe não tem aquela coisa de parar pra tirar uma foto, são desprovidos dessa maquiagem, eles são essência”.

Hoje, aos 10 anos, Cecília continua estudando sanfona com o seu Cícero, um senhorzinho de 80 anos, com aparência de 60, descreve aos risos. Além do acordeon, a cada 15 dias, aos domingos, a garota segue com os pais de carro até Baturité, onde tem aula particular de canto. Sua voz já está bem trabalhada, mas reconhece que precisa melhorar sempre mais. "Quando eu toco o acordeon me dá uma alegria muito grande e quando eu canto me sinto outra pessoa. Tocar e cantar me faz bem, me acalma", define.