A Polícia não resolverá sozinha

Após atingir picos no número de homicídios, Estado aposta em projetos de inclusão social

A Capital assistiu à violência se tornar uma epidemia. Foi se indignando cada vez menos com as mortes na periferia, até que foi surpreendida pelas 5.134 execuções ocorridas somente em 2017. O índice que denuncia uma guerra civil foi motivado, principalmente, pelo acirramento entre as facções criminosas. Neste ano, embora os números apresentem uma leve diminuição em Fortaleza, ainda está longe do ideal. Até o último dia 23 de abril, a Secretaria de Segurança Pública e Defesa Social (SSPDS) havia registrado 1.538 Crimes Violentos Letais Intencionais (CVLIs) - homicídios, latrocínios e lesões corporais seguidas de morte - em todo o Estado. Destas vítimas, 125 são crianças ou adolescentes. O mês de maior incidência de casos foi janeiro, com 47 ocorrências.

A Pasta criou uma comissão especial para traçar um perfil dos milhares de vítimas das execuções. Identificaram quantos tinham envolvimento com drogas, facções criminosas ou teriam sido alvo de uma possível vingança. No entanto, assim como todas as outras Instituições procuradas pela reportagem, não computou quantas delas tinham filhos. Ciente de que a problemática não é apenas uma questão de Segurança Pública, o titular da SSPDS, André Costa, diz que um outro estudo foi feito para identificar quais pontos deveriam ser priorizados com iniciativas de combate ao crime, integradas à assistência social.

Em Fortaleza, temos 192 favelas. Na Capital, 80% dos homicídios acontecem em até 500m de algumas favelas, o que corresponde a não mais que 40% do território de toda a Cidade. Desses 80%, só 15% acontecem dentro da área desse aglomerado. Ou seja, 75% é no entorno da comunidade. Se colocarmos as viaturas na mancha criminal, vamos estar sempre ao redor. Percebemos que tudo o que aconteceu no passado, as mortes estavam no entorno”

Costa

Segundo o secretário, diversos projetos criados pela SSPDS são voltados para atrair as crianças e adolescentes, e afastá-los de um possível contato com o tráfico de drogas. Porém, o delegado federal admite que as dificuldades existem. A Capital enfrenta sérios problemas com a disseminação do poderio das facções, que tem até impedido as crianças de chegarem à escola. “Temos áreas que crianças têm dificuldade em chegar até a escola porque para chegar até o colégio têm que passar por essa outra comunidade. Por vezes, essas áreas têm a presença de grupos criminosos rivais. Um exemplo era a Babilônia e o Gereba. Identificamos problemas de acesso ao serviço público, pichações com ordens ou marcações de território, manchas criminais de assaltos e, principalmente, de homicídios. Como a gente mapeou que lá era um local crítico, posicionamos parte do novo efetivo policial lá, focando que fosse um policiamento mais de aproximação, menos de combate. A ideia não era ser uma ‘tropa de choque’. É uma equipe fixa, mais maciça. Parece com a Unidade de Polícia Pacificadora (UPP), no Rio (de Janeiro). A diferença é que a UPP era um projeto só com PM, aqui é um projeto de governo, que envolve várias instituições”.

A Babilônia foi a primeira a receber a base fixa da PM e os projetos de urbanização, limpeza e iluminação pública. A comunidade se estabeleceu em um conjunto habitacional em construção, invadido antes da conclusão. Historicamente, com problemas em relação à violência, a Babilônia amargou dias de chacinas, expulsão de moradores das casas e a dominação extremamente violenta da facção local Guardiões do Estado (GDE). Uma moradora do local disse que os criminosos preferiram se calar e fingir que estava tudo calmo, mas o local ainda é controlado pelo tráfico. “Eles fingem que foram dominados para tirar a Polícia lá de dentro, mas só quem mora lá sabe de todas as regras que precisamos seguir para que todo mundo pense que está tudo bem”, revelou.

André Costa vê melhorias no local e afirma que há um trabalho de valorização das pessoas. O coaching Paulo Vieira, famoso pelos conselhos carregados de frases de autoajuda, dará palestras na comunidade. “Lá foi o primeiro local que escolhemos para fazer este trabalho. Até novembro, a realidade era que ninguém ficava nas ruas, na praça, que é muito boa. Colocamos a iluminação onde tinha rede elétrica. Eles tinham feito um muro para as viaturas não entrarem e nós derrubamos. Tinha cercas, que também foram retiradas. Também estamos realizando um trabalho com a Federação Brasileira de Coaching (Febracis) para tentar mudar a visão de mundo das pessoas. O que adianta ensinar uma profissão a uma pessoa, se a ela não acredita em si?”, indagou.

As bases da PM também foram instaladas no Conjunto Jagatá, na Alameda das Palmeiras, na Lagoa do Urubu, na Favela do Sossego, na comunidade do Lagamar, no Conjunto Maria Tomásia e no Residencial José Euclides Ferreira Gomes.

Pertencer

O secretário pontua que as crianças e adolescentes inseridas em contextos de violência e miséria precisam se sentir parte de algo, pertencer. Por conta disto, firmou parcerias com times de futebol e com Orquestra Filarmônica de Fortaleza, para que esse público tente se reconhecer nesses espaços. “O jovem precisa pertencer a algo. Isso é uma coisa do ser humano. Se você não oferecer uma opção para ele, quem vai fazer isso? Se for só um grupo criminoso, ele só vai ter essa possibilidade. Estamos trabalhando para fazer um concerto chamado ‘Gereba in Concert’, no começo de maio, no Theatro José de Alencar. Umas 200 pessoas da comunidade vão assistir ao concerto”.

Um viés esquecido há anos, e dificilmente mencionado pelos gestores, foi pontuado por André Costa durante a entrevista: “Nossa Secretaria não é só de Segurança Pública, é também de Defesa Social. Quando a gente vê esse trabalho que eu expliquei (do Gereba), vemos o papel da Defesa Social. É uma transformação na vida das pessoas. A vida delas está mudando, aos poucos, claro, pois é um processo, e isso leva tempo”.

Mudança

Retomando o lado mais incisivo que tentou implantar logo de sua chegada, Costa afirma que “essa bandidagem que está aqui, hoje, não aguenta pressionar e não consegue encarar a Polícia, no Ceará”. Mas, em seguida, agradece a Deus por a situação estar “nesse patamar ainda”. “Quando a Polícia chega com força, resolve o problema, normalmente, sem confronto, diferente de outros lugares. Não gosto de comparar, mas falando em Rio de Janeiro: por que foi necessária uma intervenção militar lá e aqui não? Porque ainda conseguimos. O nosso papel é garantir que as pessoas tenham uma vida digna e acesso aos serviços públicos”, explicou.

O secretário assume que o projeto que integra Segurança Pública e Defesa Social, na tentativa de mudar o futuro de crianças e adolescentes em extrema pobreza, não vai ser concluído de uma hora para outra. “Para construir o projeto vai levar um tempo. Jamais seria irresponsável dizendo que todos os problemas serão resolvidos em um mês. Sei que estamos no caminho certo. Algumas pessoas são mais céticas e vão dizer que nada mudou, que tudo continua o mesmo. Sou otimista, mas sei que a resolução do problema não vai ser só com a Polícia. Acredito muito nas parcerias que temos feito e nós, da Segurança Pública, não recusamos ajuda de ninguém”.

Prefeitura

André Costa disse que a Prefeitura de Fortaleza tem oferecido todo apoio às ações sociais nas comunidades. Responsável por assistir crianças e adolescentes em situações de vulnerabilidade e acolhê-las, se forem abandonadas, a Prefeitura foi procurada pela reportagem, por meio da assessoria de comunicação da Secretaria Municipal de Direitos Humanos e Desenvolvimento Social (SDHDS), mas não quis dar entrevista. Em nota, a Pasta informou que “dispõe de 80 vagas para o acolhimento de crianças e adolescentes, de 0 a 18 anos, que se encontram em situação de vulnerabilidade social”. As vagas são destinadas a toda demanda da Cidade, seja por quebra de vínculo familiar ou situações de violência urbana.

Segundo a SDHDS, os abrigos “oferecem ambiente agradável, educativo e seguro para o resgate de valores básicos da convivência familiar, concentrando esforços para a reconstituição do vínculo com a família”. Ainda conforme a nota,

para acompanhar crianças e adolescentes, o equipamento disponibiliza equipe multiprofissional, incluindo psicólogo, assistente social e educadores”.

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