Produção de conhecimento ecoa pelo mundo

Texto: Emanoela Campelo de Melo Publicado em 14.04.2018

Terra da luz e da índia Iracema. Quando se fala em Fortaleza, é comum também associar a Capital cearense às paisagens litorâneas. Em âmbito nacional e internacional, são poucos os que conhecem a história dos pesquisadores locais capazes de revolucionar a sociedade e o mercado. Sem sol, sem praia e sem mar, é no interior de laboratórios que se encontra uma Fortaleza produtora de conhecimentos e ciências.

Por meio de quatro narrativas, é possível entender o quão vastas competências há espalhadas pela Capital nas mais diversas ciências - humanas, biológicas e exatas. Nos 292 anos de Fortaleza, se destacam as histórias das pessoas que se dedicaram às pesquisas e descobriram resultados importantes com perspectiva de revolucionar vidas à frente deste canto.

As trajetórias profissionais dos personagens deste especial mostram esforços que perpassam anos no intuito de inovar em uma urbe onde, muitas vezes, capacidade e investimento são desiguais. Ser ‘Fortalezas’ de competências, cada um na sua área, e perceber que na fonte do conhecimento estão as oportunidades de chegar às relevantes descobertas.

Uma década à espera de mercado

Há, pelo menos, 30 anos, Fortaleza registra casos de dengue. Apesar desse tempo, a arbovirose permanece como um problema grave de saúde pública com epidemias frequentes, agravada ainda mais com as mais recentes doenças cujo vetor é o mosquito Aedes aegypti. Por meio de sistema vegetal, a pesquisadora Maria Izabel Florindo Guedes, 62 anos, sabe, desde 2008, como imunizar a população.

A professora conta que a vacina para dengue, uma doença que mata o cearense há 30 anos, "está pronta há muito tempo"
Foto: Saulo Roberto

Coordenadora do Laboratório de Biotecnologia e Biologia Molecular da Universidade Estadual do Ceará (Uece), a professora descobriu em uma planta, a Vigna unguiculata (popularmente conhecida como feijão de corda), eficácia para a produção de vacinas contra dengue, zika vírus e chikungunya. Segundo Izabel, o Ceará é único a ter um grupo com a tecnologia padronizada em produção de fármacos e anticorpos tendo a planta como biorreator.

“A vacina para a dengue está pronta há muito tempo. A Fiocruz vem para cá para produzir vacinas em plantas, como nós fazemos. Nosso objetivo é produzir e fazer transferência para o mercado. Para montar a plataforma e fabricar com a quantidade certa, nós precisamos de milhões. A tecnologia foi toda desenvolvida, falta escalonar, ou seja, colocar em escala comercial”, contou Maria Izabel.

Produzida nos laboratórios do campus no bairro Itaperi, a 11Km do Centro da Capital, a vacina équatro vezes mais barata do que se fosse fabricada em outro sistema que não o vegetal. Feita a partir dos quatro sorotipos da doença, tem uma resposta positiva em nível de proteção e não causa reações.

Apesar de ver o produto pronto e fora do mercado, a professora conta que seu trabalho é gratificante: “Eu não sou cearense, mas moro aqui há mais de 30 anos. Foi aqui que continuei meus estudos. É muito trabalho, mas a satisfação ao ver os resultados e ver gente de fora vindo aprender aqui me deixa realizada. É muita dedicação. É todo um dia a dia para captar recurso e manter as pesquisas”, disse.

Maria Izabel garante ainda que, no Ceará, há mão de obra capaz de produzir muitos dos insumos que são importados pelo Brasil. Mas, para isso, é preciso investir no conhecimento. “O que falta para deslanchar e aproveitar o enorme potencial local na área da biotecnologia é investimento”.

Combustível a favor do meio ambiente

Em meio à crise do petróleo, o engenheiro químico Expedito Parente mostrou estar além do seu tempo. Nos anos 1970, enquanto o mundo buscava uma fonte alternativa de energia, o fortalezense trabalhava na proposta de um combustível capaz de favorecer a indústria brasileira e atender às demandas sociais e ambientais.

O cearense foi o primeiro a patentear a invenção do Biodiesel em todo o mundo.
Foto: Arquivo Pessoal

A primeira patente mundial do Prodiesel, hoje, Biodiesel, produzido a partir de óleos vegetais, saiu em 1980. O ‘parto’ foi duplo para o engenheiro. No mesmo ano nascia, também na Capital cearense, seu filho Expedito Parente Júnior, que daria continuidade ao trabalho após a morte do inventor, em 2011.

Expedito Júnior considera que, ainda em 1980, o Prodiesel era mais que uma patente. Segundo ele, o pai via que a proposta da produção da novidade ia além do ‘tecnicismo’. Não demorou para que a patente fosse doada. O filho ressaltou que o interesse do pesquisador não se resumia a enriquecer com o combustível, mas sim impactar a sociedade brasileira com a descoberta.

“Tudo aquilo que ele pensou na década de 1980 foi implementado nos anos 2000. São 100 mil famílias impactadas pela agricultura familiar, mais de 400 milhões de árvores implantadas pelo uso do Biodiesel, 40 fábricas inauguradas. Papai ainda conseguiu ver tudo aquilo que ele pensou lá na década de 1980. Demorou, mas chegou. É uma política que se perpetua e cresce apesar das mudanças dos governos. Tudo isso porque foi bem fundamentada”, garantiu o também engenheiro químico.

Tudo aquilo que ele pensou na década de 1980 foi implementado nos anos 2000
Expedito Parente Júnior, engenheiro químico

O biodiesel ganhou o mundo e se afastou do Nordeste. Hoje, conforme Expedito Parente Júnior, a atuação na região é uma lacuna a se preencher. O uso do Programa Nacional de Biodiesel se mostra ferramenta de inclusão social eficaz no Sul. No Ceará, a última fábrica foi fechada há dois anos. Assim, o Estado saiu do mapa do combustível na área industrial. Restou, minimamente, iniciativas no âmbito acadêmico.

“Ceará não é um produtor de matéria-prima de biodiesel. Poderia ser. Trabalhei 15 anos com meu pai. Montar empresa no Ceará e de base tecnológica é complicado. Tudo age contra. É agregar desafios. Tive privilégio de participar e atuar nesse projeto. Ele faleceu e eu assumi o papel voltado para o executivo. Chegamos a exportar tecnologia de biocombustível no ano de 2006. Meu pai teve sua missão cumprida”, orgulha-se Expedito Júnior.

Patente do biodiesel

  • Registrada primeira patente mundial do biodiesel

  • Expedito Parente recebe a Medalha do Conhecimento, prêmio do Ministério do Desenvolvimento Econômico concedido aos empreendedores que contribuem com o desenvolvimento tecnológico da indústria brasileira

  • Expedito Parente morre

  • O Programa Nacional de Produção e Uso de Biodiesel (PNPB) completa 10 anos

Fármacos a partir da reprodução animal

"Fortaleza é um polo para produção de medicamentos". A fala de Kaio Tavares, 31 anos, professor e pesquisador atuante no Núcleo de Biologia (Nubex) e coordenador da pesquisa de Biologia Molecular da Universidade de Fortaleza (Unifor), demonstra a capacidade de se pesquisar dentro do Estado do Ceará.

Todos os dias dentro da instituição de ensino, Kaio tem a certeza de que está no caminho certo: produzir e medicar. Nessa ordem. É cumprindo etapas que, nos próximos anos, a humanidade deve ser amparada por fármacos que agem, inclusive, contra vários de tipos de câncer e doenças autoimunes.

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"Hoje, nós estamos com produções de três tipos de medicamentos. Desde 2009 desenvolvemos a produção de medicamento no leite de cabra. O projeto pioneiro é tornar o leite da cabra o mais parecido com o leite humano. A ideia é ter proteínas humanas que estão nas mulheres e são antibióticos naturais", disse o docente.

Nascido em Santa Catarina, o pesquisador compara o Sul com o Nordeste ao dizer que, em Fortaleza, há potencial para se cumprir todas etapas da produção dos fármacos. Para ele, o diferencial daqui é o investimento feito no intuito de viabilizar o desenvolvimento de trabalhos 'de ponta'.

A ideia é ter proteínas humanas que estão nas mulheres e são antibióticos naturais
Kaio Tavares, coordenador da pesquisa de Biologia Molecular da Unifor

"O grupo insere esses genes humanos nas cabras para que no leite de cabras possa ter essa proteína humana, isso, pensando no futuro, para que esse leite dê apoio na amamentação insuficiente em muitas mães. Nossos projetos têm resultados positivos. É difícil dizer quanto tempo vai levar para chegar ao mercado. Os testes em animais já mostraram que esse leite tem efeito contra a diarreia infantil. Trabalhamos para provar que esses medicamentos funcionam", afirmou Kaio Tavares.

O caminho, conforme o estudioso, é longo. Isso, porque, no Brasil ainda não existe aprovação de remédios derivados do leite animal. De acordo com o professor, nos EUA e Europa isso já acontece: "Não é barato manter laboratórios com equipamentos tecnológicos. É com esse apoio da Unifor que conseguimos desenvolver pesquisas e vamos conseguir ainda mais além".

Recurso terapêutico de sucesso internacional

Dentre as descobertas científicas conquistadas dentro da cidade Fortaleza, uma, recente, repercutiu mundo afora. Há, pelo menos, dois anos, a dor de quem sofreu queimaduras pode ser amenizada. O instrumento utilizado como recurso terapêutico impressiona: pele de tilápia.

O que era, em sua maioria, descartado ao lixo, se transformou em um medicamento de sucesso internacional. Aos 61 anos de idade, o médico cearense Edmar Maciel Lima Júnior, presidente do Instituto de Apoio aos Queimados (IAP) recorda toda a sua participação no processo.

"A ideia é de um pernambucano, mas foi em Fortaleza que o estudo foi viabilizado. Começamos a pesquisa aqui há mais de três anos, com ajuda da Universidade Federal do Ceará (UFC). Lá foram feitos estudos em laboratórios e animais. A etapa pré-clínica durou 18 meses, o tempo para a gente comprovar que a pele era de boa qualidade e muito semelhante à humana", contou Edmar Maciel.

Ao observar que na tilápia havia colágeno tipo 1, resistência à tração e um bom grau de umidade, Maciel percebeu, junto a outros pesquisadores, que ali estava um importante preparo no processo da cicatrização. Com capacidade de aderir à ferida e evitar contaminação do meio externo, a pele é curativo com custo 57% menor do que a tradicional pomada de sulfa.

A pele de tilápia já foi utilizada em, pelo menos, 300 pacientes atendidos no IJF
Foto: Natinho Rodrigues

"O uso da pele impacta até na geração de empregos. O Brasil salda uma dívida de 50 anos com o uso dessa pele. Tem um leque grande de pesquisas surgindo a partir da tilápia. É sucesso também na área de veterinária e, até, na reconstrução de vaginas. Tem muito o que se fabricar e pesquisar com isso pelos próximos anos", acrescentou Edmar em seu 36º ano de medicina.

Segundo o médico, no Instituto Doutor José Frota (IJF), aproximadamente, 300 pacientes já foram beneficiados com o recurso. Hoje, 125 pessoas dedicam tempo para estudar e se aprofundar nos benefícios provenientes da pele de tilápia. O aguardo agora é que o Ministério da Saúde a disponibilize em todos os serviços de queimados do País.

"É muito interessante porque o Brasil nunca teve uma pele animal registrada na Anvisa. Nossa pesquisa foi divulgada em 33 países e ganhamos seis prêmios nacionais. Isso é a gente mostrando que é possível mostrar que, apesar de todas as dificuldades, no Nordeste e no nosso Estado, há pesquisa de qualidade", disse orgulhoso.

Fortaleza: gente

Fortaleza: recursos naturais

Fortaleza: produção de conhecimento