Guardiões dos recursos naturais

Texto: Thatiany Nascimento Publicado em 13.04.2018

Em Fortaleza algumas fortalezas batalham para manter outras vivas. Nesta dinâmica, a Cidade chega aos 292 anos e o patrimônio natural segue ameaçado. Na relação entre seres humanos e natureza, os primeiros nem sempre se dispõem a cuidar da segunda. Não é difícil encontrar exemplos de exploração, degradação e destruição. Na contramão desse fluxo, há fortalezas guardiãs. Múltiplas. Cuidadores do mar, rio, parque e mangue. Aqui são Francisco, Rusty, Cynthia e Vicente. Moradores-protetores que, espalhados na cidade, seguem defendendo vidas. Humanas ou não.

Batalhar por área verde na periferia

Quando o Parque Urbano Lagoa da Viúva, localizado no Siqueira, foi reconhecido oficialmente pela Prefeitura de Fortaleza (decreto 13.687), em novembro de 2015, há muitos anos, Vicente de Paulo e outros tantos militantes ambientais do grande Bom Jardim, já batalhavam pelo feito. Manter protegido um espaço verde de quase 39,85 hectares em uma área periférica é missão pesada. É preciso conscientização. Apropriação. Envolvimento. Sabem os moradores que protagonizam a batalha.

Há 47 anos, Vicente de Paulo, técnico eletrônico aposentado e militante do movimento ambientalista da região, mora no Bom Jardim. Viu o Rio Maranguapinho começar a ser poluído ainda na década de 1980. Acompanhou – não inerte – a degradação de outros recursos naturais do território. Das lagoas, reforça ele, só restaram duas. Justamente, as que integram o Parque Urbano. Articulado em ONGs e na Rede Desenvolvimento Sustentável do Grande Bom Jardim (Rede DLIS), Vicente é um dos moradores que mobiliza essa pauta. Visita o parque. Conhece. Se entusiasma com as possíveis melhorias. Denuncia os ataques e as tentativas de uso irregular do patrimônio natural, como o desmatamento ocorrido em 2016.

Vicente de Paulo é frenquentador do Parque da Viúva. Conhece. Se entusiasma com as possíveis melhorias e denuncia os ataques e tentativas de uso irregular do patrimônio natural.
Foto: Fabiane de Paula

“Tem certas pessoas que acham que o mato é coisa pra esconder gente ruim. Na verdade, a gente sabe que não é. A gente precisa do verde. Nós entramos na luta muito forte e pesada para proteger essas lagoas. Essas lagoas elas não faziam parte do conjunto das lagoas de Fortaleza. O poder público não conhecia e, através da Rede, o grupo conseguiu colocar no conjunto de lagoas. A Prefeitura se tornou obrigada a decretar um parque público”, recorda Vicente.

Tem certas pessoas que acham que o mato é coisa pra esconder gente ruim. Na verdade, a gente sabe que não é. A gente precisa do verde
Vicente de Paulo, militante do movimento ambiental do Grande Bom Jardim

Se a pauta é pouco visibilizada na cidade, quem mora perto do Parque garante “é lá que famílias fazem pique-niques, jovens tomam banho, amigos se encontram, pessoas descansam, pescam, sobretudo, nos fins de semana”. O espaço é vasto e dividido em quatro trechos. Além das duas lagoas (da Viúva e dos Tocos), agrega ainda o chamado “Pulmão Verde do Siqueira”– grande concentração de flora. Uma amostra engloba jucás, mangueiras, cajueiros, jenipapos e jatobás.

Vicente, representante da luta popular, cuida do meio ambiente e explica que “preservação é cultura”. Na ausência de holofotes para a causa ambiental na periferia, ele aponta “o povo que mora lá, pelo menos, já conhece”. “Não é assim como o Cocó, que é uma coisa antiga, mas existe uma divulgação. Na UPA [Unidade de Pronto Atendimento] do Bom Jardim tem a foto. As escolas já sabem que existe. Agora ainda está pouco. Precisa divulgar mais”, ressalta. Na periferia de Fortaleza, onde tantos são os gargalos, a natureza sabe que conta com alguns protetores. Vicente está nessa batalha e segue à disposição do verde.

Navegar para manter o Rio Cocó

Acordar cedo e por volta das 7h30 já está pronto para mais uma dia de navegação. Não em alto mar. E sim nas águas que correm dentro da maior área verde de Fortaleza. O Rio Cocó que tem cerca de 50 km entre a nascente e a foz, passando por três municípios (Pacatuba, Maracanaú e Fortaleza) é a segunda casa, de Francisco Araújo, policial ambiental reformado e responsável pela navegação, desde 2016, em um dos trechos do recurso natural na Capital.

A relação que hoje toma, pelo menos 10h horas diárias de Araújo, é antiga. Se em 2016, ele voltou a percorrer o Rio, levando e trazendo passageiros no trecho III, entre as pontes das avenidas Engenheiro Santana Jr e Sebastião de Abreu, no início da década de 1990 ele já ajudava a organizar essa navegação, que anos mais tarde retornaria. Convidado em 1991 para ajudar a fundar o pelotão da Polícia Ambiental, Araújo aceitou e junto a outros policiais militares dirigia uma patrulha dentro do Rio. Da BR-116 ao Caça e Pesca. “Cheguei a ir no inverno de barco até o Castelão. No barco que fazia a patrulha”, conta.

Em 2016, Francisco Araújo voltou a percorrer o Rio, levando e trazendo passageiros no trecho III, entre as pontes das avenidas Engenheiro Santana Jr e Sebastião de Abreu.
Foto: Fabiane de Paula

Até 2006, explica ele, o Rio era completamente navegável. Depois, as coisas mudaram. Para o policial da reserva, o excesso de construções imobiliárias ao redor do Parque, além de outros impactos, gerou grande acúmulo de resíduos dentro do Rio. “O que aconteceu é que esse material foi carregado pela natureza para o leito do Rio. Isso diminuiu a profundidade do Rio de 2006 para cá. Como diminuiu a profundidade, a maré não está jogando água salgada nos 12 km do rio. [em Fortaleza]. Água que o rio precisa. É essa água salgada que mata o aguapé e o capim. Como isso aconteceu, o rio não está mais navegável todo”, afirma.

Nesse intervalo de tempo, o Pelotão Ambiental cresceu. Passou a ser Companhia, depois Batalhão. Em 2014, Araújo foi para a reserva remunerada, e então foi convidado a ajudar na manutenção do Rio. Um serviço voluntário abraçado e realizado pontualmente 6 dias por semana. A folga é apenas nas segundas. Além de ajudar no trabalho pesado de retirada de árvores caídas, aguapé e lixo de dentro do Rio, ele transporta passageiros. Um passeio de aproximadamente 30 minutos, em que o afeto entre o navegador e o Rio se explicita.

A movimentação nos passeios, ainda é pouca, avalia ele. Em 2017, cerca de 2 mil pessoas participaram da atividade. A maioria oriunda de Fortaleza. “Não é atividade turística”, diz. Em todos esses anos de relação com o Cocó, Araújo acredita que, aos poucos, “as coisas têm melhorado”. A regulamentação oficial do Parque em 2017, após 40 anos de espera, foi um grande passo. Mas ainda há muito a ser feito. Se depender de Araújo, esse trabalho é agora. “A minha filha diz: pai, vai deixar de trabalhar quando? Eu digo: eu não trabalho mais. Eu deixei de trabalhar em 2014, quando eu entrei para a reserva. Eu não trabalho mais. Eu me divirto. Isso aqui para mim é uma diversão”.

Mergulhar em defesa do mar

A paixão pelo mar é explicitada na fala, nos hábitos, nos registros, na escolha profissional e acadêmica. A curiosidade e interesse pelos oceanos já levou a bióloga, Cynthia Ogawa ao Japão. O doutorado em Biociências Aplicadas foi realizado no país oriental porque lá, segundo ela, há um grande incentivo ao estudo das águas e vidas marítimas. “Quando eu tinha uns 10, 12 anos, era apaixonada por duas coisas: pelos astros e pelo mar, por essa ideia de imensidão tão perto. Nessa idade eu vi uma reportagem e um oceanógrafo falando que se conhecia mais os mistérios das estrelas do que o oceano Fiquei cismada com aquilo. A partir dali já sabia que eram os oceanos que eu queria estudar”, relata.

Formada e afetada cada vez mais pelos encantos do mar, ela explica que ao seguir a carreira acadêmica foi percebendo o “abismo que existe entre a academia e a sociedade”. “Foi um pouco de insatisfação, preocupação, um pouco de tudo. A gente não diz mais que os recursos do planeta vão acabar, que as coisas vão piorar, mas que elas estão acabando, estão morrendo. Tem espécies desaparecendo hoje. E essa falta de comunicação entre universidade e rua, preocupa. Como você faz informações para o bem sem informação?”, questiona. A inquietação impulsionou novas práticas. Cynthia aposta em educação ambiental. Conscientização. Difusão de informações.

A bióloga, Cynthia Ogawa pelo menos duas vezes ao ano participa de operações de mergulho que fazem limpeza do fundo do mar.
Foto: Saulo Roberto

Ela, que hoje atua em projetos independentes, mergulha há quase 20 anos. No começo a atividade era recreativa, depois tornou-se prática para registro e divulgação de material. Com um calendário estabelecido, junto com um grupo de mergulho, Cynthia adentra o mar de Fortaleza e de outras regiões do Ceará. Na ação, além de ajudar a revelar e diagnosticar as vidas que ali habitam, em pelo menos em duas ocasiões no ano, o grupo também realiza operações de limpeza. “Em todo mergulho volto com os bolsos do colete cheios de lixo”, reforça

Você olha para o mar lindo e chegando mais perto já avista sacola plástica, pacote de biscoito, tá cheio de garrafa plástica. Não é uma questão de: ah, o mar é enorme. Todo esse lixo que está no mar vai fazer mal a gente
Cynthia Ogawa, bióloga e mergulhadora

A natureza das atividades de mergulho são distintas, informa ela. A profundidade tem relação com essas características. No espigão da Rua João Cordeiro, na Praia de Iracema, onde Cynthia costuma mergulhar, a profundidade varia entre 6 e 8 metros. Para ela, submergir é desconstruir a falsa impressão, criada por quem olha o mar de fora, é um deserto. “Eu adoro a sensação de cair na água e ser cheio de vida, de toda forma, toda cor, todo tamanho”

Entre as grandes preocupações que afetam a saúde desses recurso, em Fortaleza, a disposição de lixo é uma das mais preocupantes, alerta ela. “Você olha para o mar lindo e chegando mais perto já avista sacola plástica, pacote de biscoito, tá cheio de garrafa plástica. Não é uma questão de: ah, o mar é enorme. Todo esse lixo que está no mar vai fazer mal a gente. Essa morte lenta e dolorosa dos golfinhos acontece porque se joga plástico no mar. Será que se eu aterrorizar as pessoas adianta alguma coisa? Mas aí a gente tenta pelo amor”. A batalha continua. Árdua, mas também frutífera. Por sorte ou merecimento, Fortaleza conta com guardiões do mar. Cynthia é, sem dúvidas, uma deles.

Educar para salvar vidas no mangue

Conchas, amostras de carcaças de peixe, caranguejos machos e fêmeas e até um esqueleto de baleia. Embalagens diversas de produtos fabricados em outros países. Os objetos que aparentemente não têm relação, há 17 anos compõem o acervo do único ecomuseu de Fortaleza. No Museu Ecológico da Sabiaguaba, o conjunto de peças expostas demonstra a diversidade dos seres marinhos e também a capacidade de destruição destas vidas, com a poluição provocada pelo homem.

Foi exatamente por viver aqui, por estar aqui que eu senti a necessidade de dar uma retribuição. E essa retribuição seria voltada às questões ambientais
Rusty Sá Barreto, educador ambiental e e fundador do Museu Ecológico da Sabiaguaba

Fruto do desejo e do esforço do pernambucano, Rusty Sá Barreto, o ecomuseu tem, ao longo desse tempo, preservado a memória social da Sabiaguaba. Dos saberes populares de pescadores e marisqueiras, ao conhecimento científico sobre as vidas que habitam o mangue. Localizado em um quartinho simples, extrapola a estrutura convencional. O museu é o próprio mangue. Ao receber estudantes, nas atividades de educação ambiental, Rusty percorre o lugar mostrando a diversidade desse ecossistema. Passeio dividido em 14 estações. Entre elas, pausa no mangue branco e vermelho. Caranguejos, peixes, lama, dunas, água do rio junto a do mar. Misturas e tesouros localizados no extremo de Fortaleza.

Fruto do desejo e do esforço do pernambucano, Rusty Sá Barreto, o ecomuseu tem, ao longo desse tempo, preservado a memória social da Sabiaguaba. Dos saberes populares de pescadores e marisqueiras, ao conhecimento científico sobre as vidas que habitam o mangue. Localizado em um quartinho simples, extrapola a estrutura convencional. O museu é o próprio mangue. Ao receber estudantes, nas atividades de educação ambiental, Rusty percorre o lugar mostrando a diversidade desse ecossistema. Passeio dividido em 14 estações. Entre elas, pausa no mangue branco e vermelho. Caranguejos, peixes, lama, dunas, água do rio junto a do mar. Misturas e tesouros localizados no extremo de Fortaleza.

Mesmo sem apoio institucionalizado, nem do poder público, nem da iniciativa privada, Rusty Sá fundador do Museu Ecológico não desiste do projetos de educação ambiental
Foto: Fabiane de Paula

De tão distante do “centro”, a Sabiaguaba, conta ele, muitas vezes é confundida com uma pequena cidade da Região Metropolitana. “A Sabiaguaba me acolheu de uma forma mais natural. Hoje eu vivo aqui com toda a minha família. Foi exatamente por viver aqui, por estar aqui que eu senti a necessidade de dar uma retribuição. E essa retribuição seria voltada às questões ambientais”, explica. Rusty já teve três bares/barracas no bairro. Fechou esses empreendimentos e há alguns anos dedica-se à educação ambiental e ao moto-clubismo.

O ideal de vida, que passa pela preservação ampla da área em que mora, se traduz em prática. Mesmo sem apoio institucionalizado, nem do poder público, nem da iniciativa privada, ele persiste. Conta com a comunidade. Se doa. Fez curso de curso de taxidermia – empalhamento de animais – para garantir a manutenção do acervo do Museu. Se coloca à disposição e fala do mangue como uma extensão de vida, valorizando a sinergia do lugar. O mangue resiste e o legado ostentado por Rusty é a apropriação que os moradores têm desenvolvido. Um deles, seu neto de 9 anos, Raley Sá. Uma pequena fortaleza, que já sabe a cidade que deseja para o futuro e palestra para visitantes sobre a importância de preservar o seu lugar

O mangue da Sabiaguaba está localizado na Unidade de Conservação da Sabiaguaba. O bairro, que é visto como “área de reserva”, abriga o primeiro e único ecomuseu de Fortaleza.
Foto: Fabiane de Paula

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