Rendilheira tradicional de Vila do Conde, onde o primeiro registro das rendas de bilros é de 1616  FOTO: ARQUIVO MUNICIPAL DE VILA DO CONDE (AMVC)
História

O mundo das rendas de bilros

Os primeiros pontos das rendas de bilros começaram a ser tramados provavelmente há cerca de 500 anos, ainda no final do século XV. O tempo passa, e as divergências de sua origem continuam. Há quem diga que tudo começou na Itália, outros citam a região de Flandres como pioneira, mas existem versões de que países como Inglaterra, Espanha e Bélgica sejam os responsáveis pela disseminação desta cultura na Europa. Entretanto, a referência histórica mais antiga está em um documento de partilha, de duas irmãs, feito em Milão no ano de 1493, segundo o livro “A renda de bilros e sua aculturação no Brasil”, de Luiza e Arthur Ramos, publicado em 1948. O registro em italiano diz: “em una binda lavorata a poncto de doii fuxi per uno lenzolo”, o qual significa: “uma faixa trabalhada a ponto de doze bilros para bordar um lençol”. A partir da Itália, a renda de bilros teria se difundido para outros pontos da península e aos países vizinhos.

Em Portugal, a palavra renda de bilros teria surgido por volta de 1560, no reinado de Dom Sebastião. Durante muito tempo, esta arte só foi praticada nos conventos e sua utilidade única era ornamentação de igrejas e das vestes eclesiásticas. Ainda segundo Arthur Ramos, as relações do País com venezianos, flamengos, franceses e ingleses explicam as influências de várias procedências que sofreu a renda portuguesa. Mas a de Flandres, nos primeiros tempos (Século XVI), parece ter sido dominante. Ramos cita Vila do Conde como um dos focos mais antigos desse artesanato. Outro centro tradicional é Peniche, cidade de pescadores, onde as rendas de bilros estariam presentes desde 1700, sendo fundada em 1887 a primeira Escola Industrial D. Maria Pia.

A origem

Flandres e Itália disputam a origem das rendas de bilros nos fins do século XV. Controvérsias à parte, o certo é que até hoje essa delicada arte é produzida, embora em menor escala, em diversos países, a exemplo da Bélgica, Espanha, China, República Checa, Itália, Portugal, Argentina e Brasil. Saiba mais no mapa.

Portugal Data de 1560, o surgimento da palavra renda no país. A origem mais aceita por estudiosos é que ela chegou procedente da Itália, França e, com maior influência, de Flandres
Brasil A técnica com os bilros foi trazida para o País pelas portuguesas, na época da colonização. Ainda hoje, há rendeiras concentradas no litoral de estados como o Ceará, Piauí, Santa Catarina e Rio de Janeiro
França A partir do século XVIII, a “dentelle aux fuseaux” adquiriu no país seu prestígio definitivo e ainda hoje continua sendo produzida em cidades como Sebourg, Brioude e Vauvert
BélgicaA “dentelle aux fuseaux” chegou a Bruges no início do século XVI, por meio de artistas belgas que estudavam na Itália. Até hoje, a cidade é importante centro rendífero na Europa
Itália Vem de Milão a referência histórica mais antiga sobre a “merllete ai fuselli”. Uma peça com renda de bilros está citada em documento de partilha datado de 1493

Apesar da distância geográfica entre Portugal e Brasil, separados pelo imenso Oceano Atlântico, a ligação sempre foi intensa, afinal, são mais de 500 anos de história. Questionamentos à parte, o fato é que, desde quando fomos "descobertos", ou "colonizados" (lembrando que em 1500 os índios já habitavam o lado de cá) ocorreram inúmeras trocas, sejam por meio da língua-mãe, da religião, da política, da alimentação ou do fazer artesanal. Esse último, vale destacar, continua nos aproximando, pois desde que as rendas de bilros desembarcaram do lado de cá, por volta do século XVII, nunca mais perdeu-se o hábito de entrelaçar fios e produzir lindas rendas.

Mesmo com poucos registros sobre a trajetória das rendas de bilros no Nordeste brasileiro, mais especificamente no Ceará, "é possível afirmar que a renda foi trazida por mulheres portuguesas, vindas com suas famílias da pátria-mãe, onde tradicionalmente se dedicavam a este mister", escreveu Valdelice Carneiro Girão, no livro "Rendas de Bilros", publicado em 1984 e relançado em 2013. Segundo a autora, assim veio a aculturar-se e difundir-se entre nós nas zonas do litoral e do sertão e por meio da mulher do povo, tornando-se uma cultura folk.

Não por acaso, os primeiros a pesquisarem a origem da renda de bilro brasileira foram os folcloristas, dentre eles, Câmara Cascudo, um dos mais renomados na área. Ele fez pesquisas etnográficas sobre a rede de dormir e a jangada, elementos do universo litorâneo do Ceará, no qual a renda também está inserida. Vale ressaltar que tais culturas estão unidas em duas cidades cearenses. Em Potengi e Santana do Cariri, artesãs produzem redes de dormir (de origem indígena) tecidas nas almofadas de bilros (de origem europeia). Para fazer a rede de dormir toda no bilro, pode-se levar até seis meses. O trabalho é complexo, mas possibilita a atuação de até três artesãs simultaneamente.

Além do Ceará, outros estados da região Nordeste também são reconhecidos produtores de rendas de bilros, a exemplo de Alagoas, Pernambuco, Paraíba, Rio Grande do Norte e Maranhão, Sergipe, Piauí e Bahia. Na região sudeste destaca-se o Rio de Janeiro, mais precisamente a cidade de Cabo Frio. No Sul do Brasil, o Estado de Santa Catarina se sobressai, mas há registros ainda de produções também no Rio Grande do Sul. O escritor gaúcho Érico Veríssimo já mencionava mulheres fazendo rendas de bilros em seu livro “O Tempo e o vento - O Continente”, narrado no período de 1890. Lá, elas teciam para distrair o pensamento enquanto seus maridos enfrentavam guerras e batalhas. No Ceará, ainda o fazem no período em que seus maridos, geralmente pescadores, enfrentam a imensidão do mar. A escritora conterrânea Rachel de Queiroz assim homenageou o ofício, conhecido também por "Renda do Ceará" ou "Renda da terra":

"É como a trama da renda da terra,
Que a rendeira rebate e retorce e
pontilha os espinhos,
Na ânsia de endurecer a graça
petulante de uma traça,
no afã de alinhar mais o trocado
do ponto de filó,
e sai tão fina, tão delicada,
tão perfeita,
que vocês, meus irmãos do Sul,
mandam buscá-la aqui, na
barraquinha anônima das várzeas,
para ostentá-la, depois,
no meio do seu luxo...
Renda da terra - Rachel de Queiroz

Diferentes línguas, uma só arte

Bobbin lace (inglês), dentelles aux fuseaux (francês), Krajkaiv (tcheco), Klöppeln (alemão), Encaje de bollilos (espanhol), merletto a fuselli (italiano). Assim são chamadas as rendas de bilros pelo mundo afora. No português, a origem da palavra mais aceita vem da catalã “randa” que, por sua vez, terá uma origem saxónica, significando orla, bordadura. Na galeria, confira cartazes de mostras, feiras e exposições sobre rendas de bilros promovidas em vários países, principalmente na Europa.