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04/02/2016
Para tecer a “Rede de almofada”, a cearense Zefinha usa, aproximadamente, 170 pares de bilros e demora cerca de dois meses para concluí-la FOTO: PATRÍCIA ARAUJO
Patrimônio Cearense

Cultura na rede de dormir

Distante das praias do Ceará também é possível encontrar belas paisagens, assim como persistentes rendeiras desenvolvendo trabalhos inusitados e quase em extinção. São as redes de dormir tramadas por vários bilros numa almofada gigante. Sim, elas medem em torno de 1.80 cm de comprimento e pesam mais de 100 quilos. Dependendo do desenho elaborado, necessita-se de até 300 pares de bilros, resultando em peças de grande valor artístico. As relíquias são produzidas em duas cidades da região Sul do Ceará: Santana do Cariri e Potengi.

Toilza Caetano tece redes de dormir junto a colegas do Projeto Bilro, coordenado por Luiza Lacerda (blusa azul). Além do corpo da peça, fazem a mamucaba (detalhe) FOTOS: MARÍLIA CAMELO
Toilza Caetano tece redes de dormir junto a colegas do Projeto Bilro, coordenado por Luiza Lacerda (blusa azul). Além do corpo da peça, fazem a mamucaba (detalhe) FOTOS: MARÍLIA CAMELO

A tradição das “redes de almofada”, como são denominadas no Ceará, tem vários momentos. Em Santana do Cariri, por exemplo, elas costumam ser chamadas de “Cezarinas”, em homenagem a Dona Cezarina, responsável por disseminar a técnica no município. A herdeira desta arte é Luiza Lacerda que, para seguir os passos da mãe, organizou um grupo de rendeiras.

Diariamente, pelo menos de cinco mulheres se reúnem para trabalhar, no entanto as peças só são feitas sob encomenda, considerando que o tempo e os custos elevam o valor. Outra alternativa são os consórcios, eventualmente lançados como forma de fomentar a produção. Em paralelo, as artesãs tecem varandas e mamucabas, tudo na almofada. Para diversificar, o grupo Projeto Bilro passou a desenvolver peças menores, a exemplo das redinhas de bonecas.

Josefa Pereira de Araújo, 69 anos, é uma mestra na arte de fazer redes de almofada, inclusive com título outorgado pela Secretaria de Cultura do Ceará. Natural de Santana do Cariri, mudou-se ainda criança para Potengi, levando consigo o talento revelado precocemente.

Nos municípios de Santana do Cariri e Potengi, no Sul do Ceará (Brasil), são produzidas as redes de almofadas, valorizando, assim, dois símbolos da cultura cearense ao mesmo tempo

Desde então, Zefinha, como é conhecida na sua cidade, nunca mais parou. A luta para perpetuar a tradição, herdada de sua mãe, Helena, tem sido permanente, mas a resistência começa em casa. Das quatro filhas da mestra, todas aprenderam e sabem fazer muito bem, entretanto, apenas uma permanece no ofício.

Mestra da Cultura do Ceará, Zefinha deseja ensinar a jovens gerações para manter a tradição da rede de almofada no Cariri FOTO: PATRÍCIA ARAUJO
Mestra da Cultura do Ceará, Zefinha deseja ensinar a jovens gerações para manter a tradição da rede de almofada no Cariri FOTO: PATRÍCIA ARAUJO

Zefinha também tentou formar um grupo para ensinar outros jovens da sua cidade, aliás, transmitir a tradição é uma das condições para obter o título de “Mestra da Cultura” . Até o momento, não obteve sucesso. A rendeira admite a dificuldade de depender deste tipo de trabalho, seja pelo tempo dedicado, cerca de dois meses, ou pelo preço cobrado, em média, de R$ 950,00. Sem falar dos custos com as varandas, aplicadas por último e, geralmente, feitas de crochê. Por tanta dedicação, o seu valor ainda deve ser reavaliado. O resultado é perfeito, pois reúne duas expressões da cultura cearense - a rede de dormir e a renda de bilros - em um só objeto.